Entrevista

Mamadou Ba pede proteção policial para continuar luta contra o racismo

Mamadou Ba pede proteção policial para continuar luta contra o racismo

O dirigente da associação SOS Racismo e assessor do Bloco de Esquerda (BE), Mamadou Ba, vai pedir, através do seu advogado, proteção policial para poder continuar a prestar o seu "contributo" na luta de "milhares de cidadãos" contra o racismo.

Mamadou Ba foi abordado esta sexta-feira quando se dirigia para um debate sobre a crise da democracia, em Lisboa, pelo cabeça de lista do Partido Nacional Renovador (PNR), João Patrocínio, que o confrontou com as suas declarações no Facebook sobre a PSP, enquanto um outro militante gravava a situação para, posteriormente, a partilhar nas redes sociais.

No início da semana, o dirigente do SOS Racismo referira-se, no seu Facebook pessoal, à "bosta da bófia" a propósito dos confrontos com alguns moradores, no último domingo, no bairro da Jamaica, no concelho do Seixal. A PSP alega que foi recebida à pedrada e que a força utilizada foi proporcional, mas, nas redes sociais, um vídeo de parte dos acontecimentos tem originado acusações de violência policial "gratuita" e de racismo por parte das autoridades.

"Tem subido o tom das ameaças. Vou pedir proteção policial, porque, obviamente, a minha intenção não é reduzir a minha atividade de militante. Não o farei, em nenhuma circunstância. Mas não quero armar-me em mártir, não é isso que quero fazer. Quero continuar a prestar o meu contributo junto de milhares de cidadãos que estão envolvidos na luta contra o racismo e é essa a luta que importa levar para a frente. Para isso, tenho de estar em segurança", afirmou, ao JN, Mamadou Ba, à margem da concentração que decorre, na tarde desta sexta-feira, em frente à Câmara Municipal do Seixal. O pedido, por ameaça à integridade física será feito através do seu advogado.

Mamadou Ba admitiu que, apesar de não estar "à espera" de encontrar os militantes do PNR onde os encontrou, não considera a situação "surpreendente". "Um dos crepúsculos da extrema-direita que, neste momento, está a fomentar o ódio nas redes sociais e, sobretudo, nas plataformas digitais, é o PNR. O PNR tem uma motivação óbvia que é acirrar os ódios e encontrar um bode expiatório para legitimar a sua retórica racista. Não foi uma surpresa aquela espera", afirmou.

A propósito da expressão que utilizou no Facebook, e que hoje poderia substituir por "horrores da polícia", o assessor do BE lembrou ainda que, em ocasiões anteriores, "já disse coisas muito mais contundentes contra a polícia" e que continuará a dizer enquanto esta mantiver a sua forma de atuação em bairros como o Jamaica, considerado problemático. "Há claramente um aproveitamento da extrema-direita", sublinhou.

"O que me parece importante é: hoje, no século XXI, há uma força de extrema-direita que acha que tem o direito de amordaçar um ativista por aquilo que este ativista acredita e fá-lo com um à-vontade tão declarado. Parece-me que é tempo de acordarmos para esta realidade", defendeu, acrescentando que, neste momento, o PNR - "uma agremiação de nazis que já albergou pessoas da Frente Nacional e dos Hammerskins que assassinaram [em 1995, em Lisboa] o Alcino Monteiro - "precisa de qualquer pretexto para aparecer", de modo a "manter a bandeira do nacional-fascismo em Portugal".

"Claro que quem olha para aquela retórica percebe uma coisa básica: para o PNR, o Mamadou Ba, por ser militante do Bloco de Esquerda e por ser ativista anti-racista, já não faz parte do tecido nacional, é uma pessoa escorraçada. O que o PNR não percebe é que há muitos milhares de Mamadou Ba que são negros, que são portugueses e que, mesmo que não fossem portugueses, antes de serem portugueses são seres humanos e, portanto, têm direito à sua dignidade, à sua honorabilidade e não podem ser violentados naquilo que são", sustentou.

O PNR agendou, para o fina da tarde desta sexta-feira, uma manifestação entre o Terreiro do Paço e a sede do Bloco de Esquerda pela "ilegalização do braço armado do Bloco de Esquerda", o SOS Racismo, mas, por imposição da PSP, a marcha ficará a cerca de 100 metros do edifício, localizado na Rua da Palma.

Além de Mamadou Ba, o JN sabe que também a dirigente do BE, Catarina Martins, e a deputada bloquista Joana Mortágua, uma das vozes que condenou a atuação da PSP, a 20 de janeiro, no bairro do Jamaica, têm recebido ameaças nas redes sociais e nos seus e-mails parlamentares.