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Manuel Pinho demitido em pleno debate

Manuel Pinho demitido em pleno debate

Um gesto (dois dedos na testa em forma de chifre) "injustificável" levou Sócrates a demitir Manuel Pinho da pasta da Economia em pleno debate do estado da Nação. Foi a única saída possível para salvar a imagem pública do Governo.

"Nada justifica este gesto e não é admissível que isto tenha acontecido". Por isso, anunciou o primeiro-ministro, "decidi durante o debate pedir ao ministro das Finança para que, até ao final da legislatura, assuma as duas pastas".

Terminava, assim, a intensa actividade de bastidores que levaria à queda de Pinho.

Sócrates disse aos jornalistas que Pinho lhe comunicou, durante o debate, "a sua vontade de se demitir e eu aceitei". Mas, antes, aos mesmos jornalistas, Manuel Pinho garantia que não se demitiria para poder continuar a "safar" postos de trabalho. Ao responder à pergunta se achava que tinha condições para continuar no Governo: "Absolutamente, sobretudo enquanto safar postos de trabalho como sucedeu nas minas de Aljustrel". Foi a resposta, antes de abandonar temporariamente o Parlamento.

Mais tarde, foi chamado à sala do Governo na Assembleia, para um encontro com os ministros Santos Silva e Silva Pereira.

A partir daí o cenário da demissão estava desenhado.

No hemiciclo, todos os partidos, incluindo o PS, exigiram um pedido de desculpas do Governo ao Parlamento.

O primeiro-ministro não se fez rogado e, em nome do Governo, pediu desculpas formais à Assembleia da República e considerou "injustificável" o gesto do (ainda) ministro. Era a sentença da morte política de Manuel Pinho.

Depois de ouvir as palavras de Sócrates, o presidente da Assembleia da República, o socialista Jaime Gama, foi aplaudido por toda a câmara ao dizer que o caso "estava sanado", mas sublinhou que "nunca deveria ter ocorrido" por afectar a relação institucional entre o Governo e o Parlamento.

Tudo começou no plenário, quando Francisco Louçã usou da palavra para confrontar o primeiro-ministro com a situação nas minas de Aljustrel, onde, disse, "não está um único mineiro a trabalhar". Enquanto Sócrates respondia ao líder do BE que não era verdade, que nas minas já trabalhavam 200 pessoas, o ministro da Economia, sentado na bancada do Governo,em frente aos deputados, usou os dois dedos indicadores para simular dois chifres na testa. Respondia a um comentário de Bernadino Soares, para lembrar que o ministro tinha dado a uma colectividade de Aljustrel um cheque de cinco mil euros da EDP.

A imagem foi difundida em directo pelo Canal Parlamento e divulgada pelas televisões. Acto contínuo, Bernardino Soares ligou ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, para exigir um pedido de desculpas do governo e lembrar que Manuel Pinho ainda tinha idade para sofrer as consequências de uma reacção "em termos pessoais", um eufemismo do deputado para "um par de murros".

Santos Silva apresentou desculpas ao PCP e sentou-se ao lado de Pinho, a quem falou discretamente. A seguir, teve de ouvir uma nova exigência de desculpas, desta vez do BE. Era o princípio do fim de Pinho no Governo.

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