Parlamento Europeu

Marcelo garante em Estrasburgo estabilidade de Portugal

Marcelo garante em Estrasburgo estabilidade de Portugal

O presidente da República garantiu esta quarta-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, que, embora seja de "uma área doutrinária" distinta da nova maioria parlamentar em Portugal, zelará pela "estabilidade".

Sempre na primeira pessoa - registo que é habitual em Marcelo Rebelo de Sousa, mas não na política portuguesa -, e em quatro línguas diferentes - português, inglês, francês e alemão - o discurso com que o Presidente da República se estreou esta quarta-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, foi um seguro de vida do Governo de António Costa, que garantiu ser "respeitador dos compromissos internacionalmente assumidos", e uma declaração de esperança sobre o futuro da Europa, mas com as regras do passado, integradora, nomeadamente dos refugiados, e sem dissidências. "A Europa com que sonho quer manter-se atenta a possíveis chegadas, desejando que não haja partidas", declarou.

Durante quase meia hora, Marcelo oscilou entre referências de inspiração óbvia em Martin Luther King, o ativista e Nobel da paz que proclamou "Eu tenho um sonho", e John F. Kennedy, antigo presidente dos EUA que usava os discursos para fazer dos parceiros cúmplices para viabilizar projetos e evitar obstáculos. A mensagem, disse, é clara: "estabilidade, recusa de crises políticas, procura de convergências alargadas, reforço do sistema financeiro e o desejo sincero de que tenha pleno sucesso o caminho exigente de compatibilização entre rigor financeiro e preocupações sociais".

Terminou com um salto a Casablanca, intemporal do cinema norte-americano em que Humphrey Bogart promete à amante: "Teremos sempre Paris". No filme, era a promessa de que mesmo que nunca mais se vissem, o amor que os uniu seria eterno. Na vida da política europeia, em mudança, Marcelo adapta e replica a promessa. "Somos europeus. Nós seremos sempre europeus".

O hemiciclo, quase cheio, aplaudiu. Os eurodeputados portugueses levantaram-se. E Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, confessou que o discurso "alentou todos os que estavam na Assembleia", e que ele, alemão, ficou com "o coração mais lusitano".

"Pacificar, desaromatizar, cicatrizar"

No balanço da relação entre Portugal e a Europa, Marcelo só não disse que é "o início de uma bela amizade", porque a história, desde o pedido de adesão à União Europeia, com o qual diz ter "vibrado" em 1977, é, como também mencionou, longa. Mas fez questão de sossegar as instituições europeias, dando um sinal claro de que o Governo liderado pelo PS, mas apoiado no parlamento por partidos com os quais diverge em matéria europeia, não vai quebrar os compromissos europeus.

"Portugal quer continuar a garantir os equilíbrios financeiros, o controlo do défice, da dívida pública, procurando, ao mesmo tempo, começar a compensar setores sociais mais sacrificados no passado recente e acreditando que, além do investimento privado e das exportações, também o consumo das famílias pode criar crescimento e emprego", afirmou, caucionando, mais uma vez, o caminho político escolhido por António Costa.

"É um caminho que visa as mesmas metas macro-económicas e financeiras, mas que é diverso, em parte, do anterior", reconheceu, para logo de seguida assegurar que é "conduzido por um Governo também europeísta, respeitador dos compromissos internacionalmente assumidos, apoiado no Parlamento não só por uma das duas principais famílias políticas europeias, mas também por partidos de outra relevante família europeia, que, até agora, tinham estado fora da área do poder executivo constitucional em Portugal."

Marcelo enfatizou o compromisso de honra: "Portugal continua fiel a esta constante da sua estratégia nacional, com todos os seus Presidentes e com todos os seus Governos". E insistiu que é "essencial pacificar, desdramatizar, cicatrizar feridas, reconstruir consensos".

A Europa ajudou Portugal, mas Portugal também soube estar à altura do apoio recebido, afirmou o presidente da República. "Portugal soube aproveitar com êxito os fundos estruturais provindos da Europa: modernizou o seu tecido produtivo, qualificou a sua mão-de-obra, construiu infraestruturas essenciais", elogiou. Mas, para isso, lembrou, o país teve de fazer mais em menos tempo. "Para se ajustar às regras europeias, Portugal viu-se obrigado a dar em 12 anos os passos que economias mais fortes haviam dado em mais de 40". E, pelo meio, lembrou, "descolonizou, acolheu e integrou, numa população de nove milhões, 700.000 nacionais e africanos de língua portuguesa, viu o poder militar permanecer até 1982, saiu de uma economia parcialmente colonial, rural e fechada para uma economia europeia e globalizada, aberta, progressivamente reprivatizada e com mais peso dos serviços e de novas indústrias."

O preço das mudanças "foi imenso", frisou. "E nem a utilização dos fundos comunitários foi suficiente para a necessária consolidação". O programa de ajustamento que resultou das crises mundial e europeia de 2008 e 2009 e "dos problemas estruturais ainda por resolver", foi um teste "à capacidade histórica dos portugueses para resistirem às crises e aos sacrifícios". A saída limpado programa é a prova, elogiou, de que Portugal honra os compromissos.

Sem esquecer o terrorismo e a crise do refugiados -"caso em que Portugal tem sido um exemplo em proporção da sua população, sendo dos principais países a manifestar disponibilidade para acolher e incluir refugiados na sua sociedade", Marcelo apelou a que Europa continue afastada de "comportamentos xenófobos, combatendo nacionalismos exacerbados, rejeitando chauvinismos estéreis, recusando isolacionismos de outrora", o que é, só por si, sublinhou, "um imenso e invejável legado que urge dilatar e prolongar".

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