Biodiversidade

Milho e favas portuguesas na Arca de Noé

Milho e favas portuguesas na Arca de Noé

Banco mundial conserva um milhão de sementes. Portugal já aderiu.

É o maior seguro alimentar do Mundo. O banco mundial de sementes norueguês completa agora dez anos com um milhão de amostras conservadas. Fica nas ilhas de Svalbard, no Ártico, a 120 metros de profundidade, no interior gelado de uma montanha. Naquele cofre-forte, garante da biodiversidade, Portugal guarda 217 variedades de milho e 12 genótipos de fava, revela ao JN o coordenador do Svalbard Global Seed Vault, o biólogo e agrónomo Åsmund Asdal.

O seu propósito é o bem comum. Assegurar, em caso de catástrofes, sejam elas naturais ou provocadas pelo Homem, a segurança alimentar. As colheitas. O alimento. Porque, como disse o diretor-geral das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Jacques Diouf, "as sementes são veículos de vida". E isso mesmo ficou provado em 2015, na única vez em que aquele banco foi aberto para retirada de sementes. Tudo devido ao conflito armado na Síria.

Naquele ano, o International Center for Agricultural Research in the Dry Areas, situado em Aleppo, viu o seu banco de germoplasma destruído devido à guerra, obrigando-o a pedir as sementes que havia depositado em Svalbard para as duplicar e conservar em bancos no Líbano e em Marrocos. Parte dessas sementes foram, entretanto, redepositadas no ano passado.

Ao todo, foram já enviadas para aquele bunker a pouco mais de mil quilómetros de distância do Polo Norte um milhão de sementes de mais de quatro mil espécies provenientes de 76 institutos de todos os continentes. Trata-se, explique-se, de duplicações das amostras conservadas nos bancos nacionais. No caso de Portugal, estão sob a responsabilidade do Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV), situado em Braga.

Ao JN, a responsável pelo BPGV, Ana Maria Barata, explica que aquando do 10.º aniversário, em fevereiro passado, o banco enviou mais sementes para Svalbard. Estando, adianta, "previsto enviar mais duplicado oportunamente". O que não deverá acontecer antes de outubro, altura em que deverá ser novamente aberto. Porque neste momento estão a decorrer obras, no valor de dez milhões de euros, na sequência de um degelo no ano passado que inundou o túnel de acesso ao banco, não danificando, no entanto, as amostras ali guardadas.

Outra das vertentes do Svalbard Global Seed Vault, através dos seus parceiros, é o apoio a projetos de investigação e desenvolvimento, nomeadamente, tornando as espécies mais resistentes às alterações climáticas. Para o efeito, contam com a Crop Trust, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é assegurar a segurança alimentar.

Em Portugal, a Crop Trust financiou dois projetos de investigação. Um, a cargo do antigo Instituto Nacional dos Recursos Biológicos, para regeneração e caracterização da fava com vista a garantir a sua diversidade. Outro, no Instituto Nacional de Investigação Agrária, para avaliar os genótipos de trigo quanto à tolerância ao calor e à seca. O objetivo, de acordo com a Crop Trust, é o "desenvolvimento de variedades adaptadas ao calor e à seca".