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Ministro da Defesa soube por WhatsApp de encenação de Tancos

Ministro da Defesa soube por WhatsApp de encenação de Tancos

Azeredo Lopes, ministro da Defesa à data da recuperação do material furtado de Tancos, a 18 de outubro de 2017, soube poucos dias depois que tal acontecera com recurso a um informador e não fora achado por acaso, como foi comunicado ao Ministério Público, confirmou o major Vasco Brazão, da Polícia Judiciária Militar.

O militar - que, a partir de determinada altura, liderou a investigação ao furto de junho de 2017 - explicou, esta quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito aos acontecimentos, que a informação foi transmitida ao governante pelo seu chefe de gabinete, tenente-general Martins Pereira, através de uma chamada por WhatsApp. A comunicação terá sido feita na sua presença e na do diretor-geral da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, atualmente em liberdade, já após ter estado em prisão preventiva.

Perante os deputados, Vasco Brazão explicou que a ida ao gabinete de Azeredo Lopes aconteceu depois de o coronel lhe ter solicitado que escrevesse "uma justificação" para o facto de este estar presente aquando da recuperação do material, na Chamusca, sem que a Polícia Judiciária (PJ) civil tivesse sido chamada. A encenação terá acontecido depois de a PJM ter combinado com um "informador" - com o qual o major diz nunca se ter encontrado - a entrega do material. O acordo não terá incluído qualquer contrapartida.

"Aquilo que escrevemos foi uma versão dos factos muito semelhante à verdade", adiantou Vasco Brazão, precisando que o ministro soube foi que "a informação veiculada publicamente não era a verdade dos factos e que o que tinha acontecido é que tinha sido recuperado o material através de um informador". Azeredo Lopes foi "informado de que os factos que foram noticiados e informados ao Ministério Público não são a realidade", reiterou.

Esta é a segunda vez que Vasco Brazão, em prisão domiciliária desde 3 de outubro de 2018 no âmbito da investigação à recuperação do material desaparecido de Tancos, afirma publicamente que o então ministro soube, posteriormente, de que o achamento acontecera com recurso a um "informador".

A primeira fora a 31 de outubro de 2018, numa curta declaração aos jornalistas, já depois da demissão, a 12 de outubro, de Azeredo Lopes, na sequência da polémica em torno daquela encenação. O major - que atribui o desenho da operação à "hierarquia" da PJM - nega, no entanto, que tenha existido qualquer "encobrimento".

Atualmente, o processo ao roubo e recuperação de armamento de Tancos conta com 20 arguidos, nove dos quais em prisão preventiva e um em prisão domiciliária. Em causa estão os crimes de terrorismo internacional, associação criminosa, tráfico de droga, furto, detenção e tráfico de armas, tráfico de influência, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documento e abuso de poder.

Esta quinta-feira, Vasco Brazão assumiu que foi um "erro" não comunicar a operação destinada à recuperação do material à PJ civil e ao Ministério Público, mas sublinhou que o objetivo foi, sobretudo, assegurar o interesse nacional.