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O caminho da liberdade de Camilo Mortágua

O caminho da liberdade de Camilo Mortágua

Um revolucionário também tem passado, família e infância. Foi com este pensamento em mente que Camilo Mortágua se lançou a escrever as suas memórias. O primeiro volume foi lançado pela Esfera do Caos, na sexta-feira.

Um bebé chora incontidamente, em berreiros frenéticos e persistentes. Esse bebé, que "lançou o primeiro grito na alta madrugada de 29 de Janeiro de 1934", e a quem logo apelidaram de "Come e cala", nascia em "tempos favoráveis à imposição do silêncio e à exigência da obediência". Mas com os seus berros, "cedo deu sinais da sua revolta contra quem o mandava... comer e calar!".

Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua, não é a história da busca de uma liberdade ideológica ou política. É o relato, às vezes na primeira pessoa, outras, na terceira, da fervorosa procura da "liberdade que não é contra nada". "Liberdade apenas para ser livre. Livre até de não ser livre".

O primeiro volume foi lançado sexta-feira, na Biblioteca Museu República e Resistência, apresentado pelo historiador Luís Reis Torgal.

As memórias de Camilo Mortágua de 1934 a 1961 (o segundo volume, no prelo, abarca os anos de 1962 a 1977) são histórias de raízes. "As pessoas são um bocado como as árvores. O que conta são as raízes, aquilo que absorvem e que as alimenta durante a vida", declarou o autor ao JN pouco antes do lançamento do livro.

Nascido junto aos rios Vouga e Antuã, no concelho de Oliveira de Azeméis - terra de moleiros e padeiras - Mortágua destaca nas primeiras 70 páginas da obra a vida feliz, mas austera, da infância. "Normalmente o Batata [Mortágua] acompanhava o pessoal da casa nos trabalhos das lavouras".

"As pessoas não têm paciência para olhar para o lugar de onde se vem. Mas é fundamental", diz o autor. Assim, fala da influência do Antuã. "O rio era o prolongamento da casa de cada família"; "sem mestre, foi aí que o Batata se autoformou nas artes de esbracejar para se manter à tona d'água".

Aos 12 anos seguiu com os pais e as duas irmãs para Lisboa - Alto do Pina. Lugar da "grande desilusão" onde aprendeu "a conhecer profundamente as razões da sua assumida e inevitável paixão pela liberdade". Na capital já não era nem "Come e cala", nem "Batata". Era "Zé ninguém". Sofreu. Vendeu pão, serviu "copos" na taberna do pai. E leu muito. Mas a vida opunha-se a que estudasse.

Aos 17 anos, revoltado, partiu - "para um lugar onde pudesse ser eu" - e chegou à Venezuela. Ali foi emigrante. Foi à Colômbia. Assistiu à queda da ditadura venezuelana e solidarizou-se com a revolução cubana. Aventurou-se na rádio com o desportivo "Ecos de Portugal". E "sem o saber (...) estava traçando o rumo futuro da minha actividade política".

O seu baptismo político foi na "Junta Patriótica Portuguesa", movimento antifascista onde se "oficiava a doutrina do socialismo científico" e a "obediência ortodoxa moscovita". Mas com a chegada do capitão Henrique Galvão (exilado na Venezuela desde 1959) "as condições alteraram-se radicalmente". Galvão bateu-se contra os que na Junta "condenavam e combatiam a acção directa contra a ditadura". A Camilo soaram--lhe bem as palavras "acção directa" - "tinha mais a ver comigo" - e foi-se embora atrás de Galvão.

Poucos dias antes de fazer 27 anos entrou para o Santa Maria, ou Santa Liberdade - paquete de luxo português, símbolo do regime. "Foi numa sexta-feira do mês de Janeiro de 1960, dia 20 (...) Não me lembro de ter olhado para o céu, nem prestado atenção ao tempo que fazia". O assalto planeado tempos antes e comandado por Henrique Galvão deu-se dois dias depois. Antes de serem localizados por um avião americano, o navio esteve em "andanças" para a "liberdade". "Uma liberdade que eu considero absoluta, mítica... que se calhar nunca alcançaremos, mas à qual nos temos de aproximar".