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O primeiro milhão de Dias Loureiro

O primeiro milhão de Dias Loureiro

Entrou na política a ganhar quarenta contos e só lucrou quando saiu. Ficou rico com a valorização do grupo de José Roquette e declarou rendimentos superiores a Belmiro de Azevedo. Gosta de poker e diverte-se a ganhar dinheiro. Será pecado?

A revelação pode ser insuficiente para mandar pintar novamente o tecto da Capela Sistina, mas este exorcismo em curso no Banco Português de Negócios (BPN) ameaça tornar-se na revisitação do "apocalipse cavaquista". Se isto for verdade, estará Dias Loureiro condenado a tocar contra a sua vontade a primeira trombeta por causa do dinheiro que tem e dos negócios em que se envolveu depois de sair da política?

A vitória eleitoral de António Guterres em 1995 e a consequente queda dos anjos do cavaquismo deixou Dias Loureiro nesta situação descrita pelo próprio: "Quando saí da política não tinha dinheiro nenhum". Seis anos mais tarde declarou em sede do IRS renumerações mais elevadas do que Belmiro de Azevedo, ou seja, quase 200 mil contos gerados pelos negócios e pela sua actividade como advogado. É preciso também dizer que o empresário nortenho costuma ser um líder habitual das tabelas "homem mais rico de Portugal". É também esta imagem de "ascensão maldita" colada a Dias Loureiro que gera invejas impiedosas e desperta curiosidades nem sempre anti-sépticas. É mais ou menos um pouco de tudo isto que está a atravessar o caso BPN.

A comissão parlamentar de inquérito manuseada pelo PS prepara-se para mover uma guerra predatória aos negócios do BPN e a investigação do Ministério Público encaminha-se para avaliar as consequências criminais de toda a gente envolvida.

Dadas as ligações de ex-governantes do PSD a este banco, estará em causa a "superiodidade moral" do cavaquismo?

Parece que sim. O envolvimento de ex-governantes do PSD como se fossem portadores do "vírus cavaquista" irritou Cavaco Silva. Irritou ao ponto de ter quebrado a sua monástica discrição para divulgar um comunicado domingueiro com pormenores sobre o seu pé de meia doméstico.

Marco António Costa, vice-presidente da autarquia de Vila Nova de Gaia e dirigente distrital do PSD, já alertou que "estão a tentar enterrar a memória do cavaquismo usando processos completamente laterais à vida política" e citou tentativas de "manchar" Cavaco Silva e "lançar um anátema" sobre os tempos da sua governação. Dias Loureiro confessou ao "Diário de Notícias" o preço que está a pagar por essa filiação política": "É muito difícil passar por isto, mas que vou fazer? Continuo a minha vida. E durmo sem comprimidos. Houve coisas piores".

Quando saiu do governo, José Roquette convidou-o para integrar a Pleîade. O grupo estava na altura modestamente avaliado em cerca de 1 milhão e 700 mil contos. Dias Loureiro aceitou o repto. Ficou com uma "stock option" até 15 % da "holding" do grupo e mais 7 % na repartição dos lucros. As acções foram baratas e estavam muito longe da valorização conseguida nos anos seguintes com a liderança de Dias Loureiro. É nesta altura que começa a ganhar dinheiro através das amizades que estabelecera nos tempos de ministro. "Os contactos na política ajudaram, mas não tem nada de mal", reconheceu diante da jactância das primeiras contradições no seu processo de ligação ao BPN.

O dinheiro chega-lhe dos investimentos na Bolsa de Valores e dos bem sucedidos negócios de Marrocos. Marrocos é todo ele um imenso oásis. Desloca-se por várias vezes ao país norte-africano em jactos particulares, onde continua a ser tratado como "monsieur, le ministre", e priva com o influente ministro do Interior marroquino - de quem ficara amigo e que goza de boa influência junto do rei Hassan II. Dias Loureiro consegue garantir uma concessão no fornecimento de água e electricidade a Rabat e prepara-se para o seu primeiro milhão.

A Águas de Portugal recusa a parceria, a EDP aceita e Dias Loureiro envolve a empresa espanhola Dragados. "Os marroquinos confiam em mim e sabem que não é apenas o empresário que está ali, mas um homem com uma certa visão do mundo", explicou na altura. O negócio da Redal - empresa que assume a liderança - exige um forte investimento, mas irá revelar-se muito lucrativo na hora da venda já na órbita do grupo SLN/BPN.

Em 2000, José Roquette confessa a Dias Loureiro estar "cansado" e disponibiliza-se para vender o grupo. O negócio é apresentado a José Oliveira e Costa. O antigo secretário de Estado do PSD propõe-se comprar tudo por 11 milhões de contos. Dias Loureiro recebe 1 milhão e 650 mil contos. Está ganho o primeiro milhão. Investe idêntica quantia em acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN) e torna-se administrador executivo do grupo detentor do BPN e de várias empresas herdadas da Pleîade.

O lustroso negócio de Marrocos acaba por sair do grupo SLN/BPN por pressão de alguns accionistas preocupados com a instabilidade política provocada pela sucessão de Hassan II. Dias Loureiro usufrui generosamente dos lucros da venda a um grupo francês. "As pessoas vêem que ganhei dinheiro, mas não vêem que trabalhei sempre muito. E fiz negócios bem sucedidos", acrescentou ao "Diário de Notícias".

Só falta dizer que este é o homem que em 1981 ganhava menos de cinquenta contos por mês como Governador Civil de Coimbra e que duas décadas mais tarde declarou rendimentos a rondar os 200 mil contos. Um homem a quem se atribui com facilidade qualidades de inteligência, influência e de gestão de informação. Alguém espera a contrição por estes pecados?

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