Ranking das Escolas 2018

Opinião: A Educação não é uma mercadoria

Opinião: A Educação não é uma mercadoria

As escolhas em Educação têm de ser ponderadas e compreender a complexidade. Daí que a transparência e a verdade tenham de estar presentes sempre. Infelizmente, há quem compreenda mal o que está em causa quando se encara essas realidades. A transparência corresponde à necessidade de acesso à informação relevante e a tudo o que na vida das instituições tem a ver com o bem comum. A verdade respeita ao escrupuloso respeito pela realidade e pelo seu conhecimento - em nome da dignidade humana, do respeito mútuo e da confiança cidadã. Sabemos como se gerou a crise financeira de 2008 e quais as suas consequências: a partir da opacidade e da ilusão. Julgou-se que havia mais riqueza pelo facto da circulação da moeda ser mais rápida. Eis o que devemos salvaguardar quando falamos de Educação e de uma seriação. E aí temos o risco da ilusão formal.

É importante conhecermos os resultados, mas estes têm de ser cuidadosamente tratados para que não estejamos a comparar realidades não comparáveis e a tirar conclusões erradas. E a sociedade pode desresponsabilizar-se perante uma leitura apenas de claro e escuro. Importa deixar evidente que a avaliação séria e rigorosa das escolas e da educação obriga: à análise do funcionamento das instituições e da sociedade, à avaliação dos professores e das necessidades de formação e a uma avaliação integrada dos alunos. Eis por que razão os "rankings" têm de ser analisados com especiais cautelas de rigor e responsabilidade. Não basta colocar as escolas numa determinada ordem. É preciso entender o contexto. Por outro lado, as políticas sociais não se fazem nas escolas, não se confundem com a política educativa, realizam-se previamente e paralelamente - para ligar o respeito das diferenças, a igualdade de oportunidades e a correção das desigualdades. Também não há receitas para a excelência. A rede escolar ligada ao bem comum, ao melhor conhecimento e à qualidade, a ligação escola - família - comunidade, a ideia de uma rede pública envolvendo diversas iniciativas e não apenas o Estado, a democratização no acesso e no sucesso, a motivação dos estudantes, a recusa da mediocridade - eis o que corresponde a objetivos de justiça, de qualidade e de exigência.

Não há melhor investimento do que na valorização das pessoas. Devemos, pois, compreender os pilares de Edgar Morin: a prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão; o ensino de métodos que permitam ver o contexto e o conjunto, em lugar do conhecimento fragmentado; o reconhecimento do elo indissolúvel entre unidade e diversidade da condição humana; a aprendizagem duma identidade planetária considerando a humanidade como comunidade de destino; a exigência de considerar o inesperado e o incerto como marcas do nosso tempo; a educação para a compreensão mútua entre as pessoas, de pertenças e culturas diferentes; e o desenvolvimento de uma ética do género humano, de acordo com uma cidadania inclusiva. No fundo trata-se de assumir plenamente as prioridades de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e a viver com os outros e aprender a ser. A Educação não é uma mercadoria. Obriga a que a liberdade e a autonomia se liguem numa verdadeira partilha de responsabilidades da sociedade e à salvaguarda da singularidade e do bem comum. Percebamos, afinal, que uma sociedade culta, civilizada e pacífica, respeitadora da cidadania e da democracia, só pode fazer-se com uma Educação em que a informação dê lugar ao conhecimento e o conhecimento à sabedoria.

*Ex-ministro da Educação (1999-2000)