Óbito

Parlamento homenageia "coragem e patriotismo" de Mário Soares

Parlamento homenageia "coragem e patriotismo" de Mário Soares

Os deputados aprovaram, nesta quarta-feira, por unanimidade, um voto de pesar pelo falecimento de Mário Soares, apelidando o pai do PS de figura "impar de cidadania política".

Na sessão evocativa do antigo presidente da República, que acontece 24 horas depois do seu funeral de Estado, o Parlamento, destaca que a "sua marca é demasiado grande para ser esquecida".

Pela voz do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, os deputados enaltecem o "legado de coragem política, de patriotismo democrático e de abertura ao mundo".

"A sua marca é demasiado grande para ser esquecida", lê-se num voto de pesar, aprovado numa sessão parlamentar que, segundo Ferro Rodrigues, tem "particular tensão e emoção". Nas galerias, a família de Soares - onde se conta a filha Isabel, a nora e os netos - assiste à homenagem. Já o filho, e deputado, João Soares sentou-se na penúltima fila da bancada parlamentar do PS, ao lado de Eurico Brilhante Dias.

"Só é vencido quem desiste de lutar", lembra-se ainda num voto de pesar, consensualizado por todos os partidos com assento parlamentar, em que se sublinha ainda o facto de Mário Soares ter "lutado até ao fim". "E com isso, deixou-nos um exemplo ímpar de cidadania política", acrescenta-se numa sessão assistida também pelo Capitão de Abril Vasco Lourenço e outras altas patentes militares, além de representantes da Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

Em representação do Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros afirma que a "Europa é o presente e o destino de Portugal". Lembrando que a defesa europeísta era exatamente uma das teses que o ex-presidente da república delegou ao país, Augusto Santos Silva elenca também como heranças soaristas "o direito à dissidência" e de que "ser patriótico exige sermos nos a decidir o nosso destino em conformidade com a Constituição"

"É preciso amar o povo e fazer melhor", diz Santos Silva, frisando que a "democracia é um combate", para concluir que tudo isto são ensinamentos que Soares deixou".

De seguida, uma intervenção do deputado do PAN (Pessoas-Animais-Natureza), em que considera que Mário Soares "é uma imagem marcante e uma referência para qualquer cidadão que se guie pelos valores da democracia, da paz e dos direitos humanos". "Valorizamos o legado que nos deixa", garante André Silva.

Já o líder da bancada do PCP, João Oliveira, apesar de homenagear o antigo presidente da República como tendo sido "uma personalidade relevante da vida política nacional das últimas décadas", considera que seria uma "hipocrisia" se fossem esquecidas as "divergências" com Mário Soares, "a começar pelas consequências da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia".

Também o deputado do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), José Luís Ferreira, assume que o PEV "nem sempre acompanhou as decisões ou as opções políticas" de Soares, "seja como primeiro-ministro, seja como presidente da República".

"Mas também é verdade que Os Verdes reconhecem ao dr. Mário Soares a natureza inovadora das suas 'Presidências Abertas', nomeadamente a 'Presidência Aberta sobre o ambiente e qualidade de vida", acrescenta, lembrando a iniciativa do histórico socialista em abril de 1994 e considerando que o antigo chefe de Estado "marcou a história do nosso país", não só "pelos relevantes cargos que exerceu depois da Revolução dos Cravos", como também "pelo seu contributo na luta contra o regime fascista".

"É uma figura incontornável do século XX português", concorda o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, considerando que Mário Soares, um "obstinado, controverso mas sempre lutador", "fez da luta política a sua vida". "Nunca deixou de lado o amor à República", conclui.

Por sua vez, o líder parlamentar do CDS/PP refere que "dizer o que pensamos com a frontalidade" foi "uma das principais características de Mário Soares". Segundo Nuno Magalhães, que defende que o antigo chefe de Estado "personifica grande parte da história do Portugal contemporâneo", "as divergências" que o CDS teve no passado com Soares "não ofuscam em nada o respeito e a consideração pelas suas qualidades indiscutíveis".

"Tivemos visões diferentes para Portugal quando em 1976, esta Assembleia aprovou uma Constituição que preconizava o caminho para o socialismo", diz, lembrando também que "mais recentemente" as opiniões divergentes continuaram durante o resgate financeiro". Período para o qual, frisou, o CDS nunca desejou. "Mas que ajudamos a cumprir".

Magalhães recorda "a oposição corajosa ao Estado Novo" e também "a coragem e a lucidez política", quando se opôs "a toda e qualquer tentativa de transformar uma revolução democrática noutra de cariz contrário em nome de uma ideologia totalitária". Para o centrista, Portugal deve a Soares não se ter transformado "numa ditadura" após a Revolução de Abril, colocando-o na galeria de outros notáveis políticos nacionais, como Ramalho Eanes, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral.

Na penúltima intervenção da sessão evocativa, o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro assume, igualmente, que "muitas vezes" a sua bancada divergiu de Mário Soares. E isso aconteceu até há muito pouco tempo, como os "escritos e intervenções" do fundador do PS.

Mas, de acordo com o líder parlamentar social-democrata, Soares merece ser lembrado por ter combatido "o fanatismo ideológico" e "evitar qualquer tipo de ditadura". E principalmente por "nunca ter desistido de lutar pela Constituição portuguesa".

Apesar das diferenças, diz Luís Montenegro, o PSD esteve ao lado de Soares em 1975 [período do "Verão Quente"], "no Governo" e na "adesão à União Europeia". E afirma que "as convicções de Mário Soares mobilizaram o país" e que ultrapassaram "em muito as fronteiras".

Antes do final de uma sessão, o líder parlamentar e presidente do PS, Carlos César, lembra a "vida longa e plena" do "antifascista" que fundou o seu partido. "Não me recordo nenhuma vez em que tenha ouvido Mário Soares a referir-se a Portugal como um país pequeno", afirma, explicando que o antigo presidente da República não pertencia ao grupo "dos dirigentes" que poderiam ter esse tipo de atitudes para justificar a sua fraca ação e resultados.

"Não foi só um homem que lutou pela democracia. Desafiou as regras do príncipe da política. Foi perfeito e imperfeito. Foi ousado e cometeu imprudências. Apostou e ganhou, apostou e perdeu. Mas nunca faltou ao seu país. Era cosmopolita. Foi sempre universalista. Foi sempre um bom português", conclui Carlos César.

A sessão parlamentar terminou com o Hino Nacional, tocado pela banda da GNR. Antes, foi transmitido um vídeo sobre a vida de Soares, em quatro telas gigantes no Parlamento, que foi aplaudido por todas as bancadas, à exceção do PCP. Contudo, os deputados comunistas, que não contaram com a presença do líder do partido, Jerónimo de Sousa, mantiveram-se de pé em homenagem à figura do ex-presidente da República.

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