Entrevista

Pires Veloso: "Costa Gomes dissuadiu Cunhal da guerra civil"

Pires Veloso: "Costa Gomes dissuadiu Cunhal da guerra civil"

Chamaram-lhe "vice-rei do Norte", foi o último governador e alto comissário de Portugal em S. Tomé e Príncipe, comandante da Região Militar do Norte e candidato à Presidência da República. António Pires Veloso, general do Exército na reforma, decidiu quebrar o silêncio e escreveu um livro a lançar, precisamente, no dia 25 de Novembro, no Porto.

Há já quem diga que será a "bomba editorial do ano", mas Pires Veloso diz que se trata de um livro de memórias e de revelações que pretendem apenas contribuir para a reposição da História, nomeadamente do PREC e do 25 de Novembro. Garante que Portugal esteve na iminência de uma guerra civil e que o 25 de Novembro pôs fim a um golpe que pretendia instalar uma ditadura comunista. Diz, mesmo, que Eanes não foi nenhum herói, definindo-o como "homem sem carácter, totalmente controlado pelo major Melo Antunes".

Foi uma das principais personalidades do chamado período da "transição" para a democracia. Mas, desde 1977, quase ninguém ouve falar de si. Porquê escrever, agora, este livro, depois de tantos anos de silêncio?

Sou acérrimo defensor daquela máxima de Galileu Galilei que diz que "a verdade é filha do tempo".

E o tempo, o "seu" tempo, só agora chegou?

Sim, chegou o momento de contribuir para a reposição da verdade. É importante que a História seja corrigida, porque em matérias cruciais tem sido frequentemente distorcida.

Em que matéria acontece essa sistemática distorção ?

Em relação ao 25 de Novembro, por exemplo, em que a verdade tem sido totalmente deturpada, essa é uma das razões porque escrevi o livro. As inverdades, as injustiças ferem-me, mexem comigo.

Em sua opinião, o que foi o 25 de Novembro?

Foi uma espécie de renovação do 25 de Abril, ou seja, estava a suceder que todos os princípios belos da Revolução de Abril estavam a ser esquecidos, apagados até.

Estávamos perante um golpe?

Sim, o Partido Comunista Português estava apostado em conquistar o poder, aliás, viemos a saber depois que a guerra civil só não aconteceu porque o general Costa Gomes chamou Álvaro Cunhal e conseguiu influenciá-lo a desistir. Esta atitude, arrancada a Cunhal com muito esforço de Costa Gomes, surtiu um efeito muito negativo junto de alguns militantes comunistas que estavam no interior das sedes à espera das armas. Esse episódio foi o próprio Costa Gomes que mo contou, no Porto.

Então, quem evitou a guerra civil e a eventual conquista do poder pelo PCP?

Foi, essencialmente, a Região Militar Norte, grande parte da população que estava connosco e os líderes dos partidos democráticos, com predominância para Mário Soares e Sá Carneiro. O coronel Jaime Neves e a Força Aérea também tiveram papéis importantíssimos.

E o general Ramalho Eanes? Não teve um papel fundamental?

Não, ele aparece como comandante do 25 de Novembro, mas é totalmente falsa essa ideia. Sei que é uma pessoa sem carácter, que deixou Portugal à beira da guerra civil. Acreditei nele, ajudei-o no primeiro mandato de presidente e ele traiu-me, enganou todos, principalmente a região Norte. Quem controlava, ou seja, quem mandava no Eanes, era o Melo Antunes, que fazia o jogo do PCP.

Mas Melo Antunes foi uma das principais figuras do Conselho da Revolução.

Pois, mas a sua obsessão pelo comunismo era uma coisa doentia, era de um esquerdismo total e, para ele, quem fosse amigo do Sá Carneiro, já era fascista.

O seu livro aborda as mais diversas épocas, em que ocupou vários cargos. Hoje, à distância, qual o cargo que mais saudades lhe deixa?

O de professor de Português e Inglês nos Pupilos do Exército. Foi a primeira oportunidade de lidar com crianças oriundas de famílias humildes, pobres, e incutir-lhes o gosto pela vida, pela educação.

E a nível político e militar, não tem alegrias para recordar?

Tenho. Gostei de ter sido o último governador e alto comissário em S. Tomé e Principe e também de ter sido comandante da Região Militar Norte (RMN).

Foi uma luta difícil? Chamaram-lhe "vice-rei do Norte" e ofereceram-lhe uma espada de prata. Gostou?

Foram tempos difíceis, mas confesso que gostei. Conheci gente fantástica e fiz, a partir daí, bons amigos. O título de "vice-rei" recebi-o com muita honra e, sobretudo, com carinho. Foi um gesto bonito das gentes do Norte. Infelizmente, proibiram-me de ir à manifestação receber a espada, mas o meu filho foi por mim.

Em 1980, três anos depois de ter sido afastado da RMN, foi candidato, sem a máquina partidária, à presidência da República?Porquê?

Fui candidato por um imperativo de consciência. E a minha filosofia foi colocar-me à disposição das pessoas e, nessa altura, pensei: "Se me quiserem, paciência! Se não quiserem, fico feliz".

Não quiseram, ficou feliz? Saiu da ribalta e foi parar a outras "guerras".

Fiquei feliz e fui tratar da minha outra guerra, a agricultura. Desde aí, aprendi a dialogar com as minhas macieiras e outras árvores.

Mas foi à sombra dessas macieiras e dessas árvores que escreveu alguns dos capítulos do livro que romperá um silêncio de três décadas.

É verdade, pensei em escrever este livro de memórias e de revelações há pouco mais de um ano e, desde então, nunca mais parei. Quer no Porto, quer na aldeia na Serra da Estrela, à sombra das árvores, ando sempre com o bloco atrás.

Tem consciência de que as suas memórias e revelações poderão agitar, de novo, a classe política e militar?

Tenho, mas confesso que não me preocupa nada. Entendi ter chegado a hora e aqui está. Quem quer gosta, quem não quer não gosta.

O livro faz referência a muita gente que, durante muitos anos, interveio na História. Fala em Mário Soares, Sá Carneiro, Eanes, Cunhal, Melo Antunes, Vasco Lourenço e muitos outros. Quem são, em sua opinião, os bons e os maus?

Da população civil, tenho que confessar que Mário Soares e Sá Carneiro tiveram papéis fundamentais na luta pela liberdade. A Mário Soares vi-o várias vezes à frente de manifestações na luta contra o comunismo. E Sá Carneiro também teve uma missão especial em mobilizar os militantes do PSD para "travarem" a ocupação dos SUV (Soldados Unidos Vencerão) no CICAP (Centro de Instrução de Condutores Auto do Porto). Acho que os dois tiveram papel fulcral na defesa da liberdade e da democracia.

Qual a ideia que tem de Álvaro Cunhal? Chegou a falar com ele?

Uma vez, em 1976, o secretário de Cunhal telefonou-me a dizer que o líder do PCP queria falar comigo, mas o encontro não podia ser no Porto. Pediu-me para ser em Lisboa. Marquei para o meu gabinete no edifício das Forças Armadas, no Restelo. Uns dias depois, encontrámo-nos. Perguntei: "Então, o que o traz cá? Ele disse: "O meu partido e eu estamos muito preocupados com a falta de liberdades democráticas no Norte do país". Perguntei, de imediato: "Mas refere-se ao período de antes ou depois de eu ter assumido o comando da RMN?. Ele disse-me: "Depois, depois..." Então, disse-lhe que tínhamos conceitos diferentes de liberdade democrática. Que antes, incendiavam-se sedes de partidos, muitos portugueses tinham que fugir do país e cometiam-se muitas injustiças e que, então, aquilo tinha acabado. Cunhal olhou para mim, fixou-me longamente e a conversa ficou por aqui. Interpretei esse silêncio como quem pensou: "Com este gajo, não há nada a fazer".

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