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"Politização excessiva" ameaça o Turismo em Portugal

"Politização excessiva" ameaça o Turismo em Portugal

Confederação do Turismo Português responsabiliza hesitação política pelo fim dos recordes no setor este ano.

Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP), considerou que "com os estrangulamentos do aeroporto de Lisboa, a concorrência da bacia do Mediterrâneo e o Brexit não seria possível termos, em 2019 e 2020, os crescimentos que tivemos no turismo" até ao ano passado. Dentro daquilo que estava ao alcance fazermos para evitar o "fim de ciclo" que a CTP e a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) consideram estamos a viver, estaria uma decisão célere relativamente ao aeroporto da capital.

"Quando perdemos 10% de dormidas dos nossos maiores mercados e o novo aeroporto de Lisboa já nem em 2022 vai estar pronto, passou-se todo o ano de 2018 e nada foi decidido, há um problema político e não se trata de qualquer problema técnico", resumiu Calheiros. "Que ninguém tenha dúvidas que os problemas nos aeroportos da Madeira e de Lisboa afetam o turismo em todas as regiões, porque é dali que muitos seguem, por exemplo, para os Açores", onde decorre o 44º Congresso da APVT, explicou o presidente da CTP.

A "politização excessiva" dos temas que afetam o turismo será o maior risco para os bons resultados do setor, nomeadamente quando é encarado como ameaça à habitação nas cidades, à viabilidade de negócios existentes e até "colocando em causa a decisão sobre o novo aeroporto" de Lisboa.

Encarar o copo meio cheio ou meio vazio, quando as dormidas de estrangeiros deixaram de aumentar, mas as receitas turísticas continuaram a crescer, este ano, em Portugal, não será apenas uma questão de atitude. Agentes de viagens e Confederação do Turismo concordam que Portugal vive um fim de ciclo, enquanto governantes acreditam que vivemos o início de um novo ciclo.

"Enquanto não tivermos dados com maior qualidade, qualquer postura sobre este tema é uma questão de opinião", defendeu o ex-secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes. Responsabilizando a falta de conhecimento sobre os turistas que recebemos e sobre o funcionamento do setor entre as principais ameaças ao setor, o político apontou a nova lei do alojamento local (AL) como o exemplo da maior ameaça. "Quem legislou foi a Assembleia da República e não o Governo, por isso foi uma lei desastrosa, sujeita a critérios políticos e não técnicos", resumiu.

A falta de fiabilidade dos dados existentes resulta da "utilização de metodologias desatualizadas por parte do Instituto Nacional de Estatística (INE)", acusou Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal. Considerando que "o copo está meio cheio", Miranda anunciou haver 22 milhões de dormidas não contabilizadas em 12 a 14 milhões de hostels que não são inteiramente considerados pelo INE. "Estamos a vender à moda antiga, quando tudo mudou. Não estamos num fim de ciclo, mas num novo ciclo", rematou Eduardo Miranda, para quem o novo desafio para o setor será "incluir a oferta do AL nas agências de viagens", isto se "não querem perder 1/3 de dormidas que não vai para hotéis por opção".

O novo perfil do viajante, analisado também num painel dedicado à tecnologia, trará mudanças de negócio e é também uma ameaça às tradicionais agências de viagens, mesmo que já estejam online. "Há o risco de as pessoas começarem a comprar viagens a quem nem sequer está na Europa", alertou Paulo Amaral, professor universitário especialista em turismo, explicando como "na China, tudo se faz através do Wechat, onde estão alojadas 800 mil apps".

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