Rescaldo

Prevenir fogo florestal combatendo a negligência

Prevenir fogo florestal combatendo a negligência

Presidente do ICNF diz que quase todos os incêndios ocorrem por ação humana. Quercus contrapõe que campanhas de sensibilização são insuficientes

No rescaldo de cada época de incêndios florestais em Portugal nunca falta a discussão sobre a prevenção. Ou a falta dela. A verdade é que, apesar do reforço de meios e das medidas tomadas, o país arde todos os anos. E este ano a tragédia até começou cedo, com mais de 13 mil hectares já queimados, na sequência de quase cinco mil ignições.

Rogério Rodrigues, presidente do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), adianta, ao JN, que "é um erro dizer que no país não se faz prevenção estrutural", pois "gastam-se milhões de euros durante todo o ano". Reconhecendo a dificuldade em fazer repercutir esse investimento no balanço final de cada época, salienta que "há que apostar mais no homem". É que "quase todos os incêndios ocorrem por ação humana" e, "retirando a fatia ligada ao crime, a maior parte das ocorrências está relacionada com negligência".

Ora, bastou um mês de abril de "terrível secura, quase comparável a qualquer mês de verão", para se ter um cenário de "queimadas e queimas como se estivéssemos num normal período de primavera ou inverno". Isto gerou naquele mês deste ano um número de incêndios que consumiram uma área superior a 11 mil hectares. "Isto não pode acontecer num país com o nível de civilização que temos", vinca Rogério Rodrigues, reiterando que "é preciso apostar mais nas pessoas para retirar esse nível de negligência".

Não se pode limpar tudo

Sobre a limpeza de matas e florestas, o presidente do ICNF realça que "é um mito dizer-se que todo o centímetro quadrado tem de estar absolutamente limpo". Justifica que "é impraticável, é utópico e é contra a natureza". Sublinha que "esta precisa de todas as espécies e a biodiversidade também".

O presidente da associação ambientalista Quercus, João Branco, concorda que limpar tudo é uma tarefa difícil de concretizar, até porque é muito dispendiosa, pelo que "a solução global passa pelo cumprimento da legislação e da efetiva elaboração e execução dos planos municipais de defesa da floresta contra incêndios. Não era preciso mais nada".

De acordo com João Branco, "as campanhas de sensibilização são importantes, mas são claramente insuficientes". É que "quando muito influenciam o número de incêndios que são causados por negligência". Porém, grande parte deles são intencionais e, quanto a esses, "a prevenção nada consegue", uma vez que "quem anda a atear fogos não é sensível aos argumentos usados nas campanhas. Muitas vezes, até há interesses por trás".

O mesmo responsável defende ainda que têm de ser implementadas medidas como "a silvicultura preventiva". Passam pela "limpeza e bom estado dos caminhos florestais e de aceiros", bem como a "criação de faixas de descontinuidade de combustível", e estão previstas na lei e nos planos municipais de defesa da floresta contra incêndios.