Sondagem

Protagonistas da Revolução perdem-se na memória dos mais novos

Protagonistas da Revolução perdem-se na memória dos mais novos

"Foi esta força viril, de antes quebrar que torcer, que em 25 de Abril fez Portugal renascer". As palavras do poeta Ary dos Santos estão gravadas na história da democracia, tal como o nome dos protagonistas que ajudaram o povo a conquistar a liberdade.

Porém, quando se assinalam os 45 anos da Revolução dos Cravos, figuras como Salgueiro Maia e Otelo Saraiva de Carvalho caem no esquecimento entre as gerações mais novas. Mesmo assim, preservam na memória as músicas que serviram de senha para o avanço das tropas.

No âmbito de uma sondagem realizada pela Pitagórica para o JN e a TSF, quase metade reprovou no teste de oito questões sobre o 25 de Abril. Apenas 51% passaram e 11% acertaram em tudo, na amostra de 605 eleitores. São as pessoas entre os 55 e os 64 anos que mais acertam em todas as questões, tal como as oriundas das classes sociais mais elevadas (A/B). As piores respostas surgem entre os 18 e os 34 anos, e na classe D.

As conclusões, sobretudo as que atribuem os piores resultados aos mais jovens e aos inquiridos de menores recursos, "não surpreendem" o presidente da Associação de Professores de História (APH). "Corroboram aquilo que temos vindo a defender, junto do Ministério da Educação e da opinião pública", disse ao JN Miguel Monteiro de Barros. Crê que "estes resultados refletem a desvalorização e fragilização do ensino da História" desde 1998, "com a redução paulatina da carga letiva" da disciplina, "questão que se coloca agora de novo, devido à autonomia concedida às escolas para gerirem os tempos letivos".

O barómetro mostra ainda que são os homens que mais acertam em todas as respostas e também os eleitores de Lisboa. Aprovado ficou sobretudo o eleitorado da CDU e do CDS. No outro extremo, está o do BE.

elementos simbólicos

Quem mais reprovou foram as mulheres e os nortenhos. As piores percentagens do Norte e do Porto são sobre quem liderou a coluna militar de tanques que marchou de Santarém para Lisboa (Salgueiro Maia), e as operações a partir do quartel da Pontinha (Otelo); e a quem Marcelo Caetano entregou o poder após se render (Spínola).

No dia da Revolução acertaram 97%; no ano 85% e nas músicas de código (Depois do adeus; Grândola Vila Morena) 77%. Nas senhas, as respostas certas dos mais novos também rondam 70%. As percentagens menores até aos 54 anos são sobretudo sobre Otelo e Spínola.

Só 44% da amostra sabem que MFA significa Movimento das Forças Armadas. E apenas 24% respondem certo sobre Otelo.

"Em termos gerais, os resultados revelam identificação com os elementos simbólicos mais centrais da revolução: dia, ano, música de código são identificados por larga maioria", comentou Jorge Fernandes Alves, professor de História Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

O docente desvaloriza "as percentagens mais reduzidas de acerto na identificação de atores específicos, certamente mais referidos por elementos das gerações que viveram de mais perto no tempo o evoluir dos acontecimentos". Mas mesmo estas "tendem a concentrar a memória no essencial". Além disso, recorda que a Revolução "foi um grito de libertação que contagiou quase todos", assumindo estes "um protagonismo pessoal". Atribui, por isso, ao pós-25 de Abril "uma mentalidade de anti-heróis em nome de uma comunhão de iguais".