Mindfulness

Quando a respiração marca o ritmo da escola

Quando a respiração marca o ritmo da escola

Se considera que respirar é um movimento inato desde o nascimento, esta reportagem vai revelar-lhe que saber respirar pode influenciar o sucesso educativo e a felicidade.

O agrupamento de escolas João Villaret (Loures) vive "uma revolução silenciosa": técnicas de mindfulness são aplicadas em alunos, professores e funcionários. Após dois anos, os casos de indisciplina diminuíram e a capacidade de atenção dos alunos disparou. Docentes e funcionários terminam o ano letivo "sorridentes".

Guilherme, 12 anos e aluno do 6.º ano assume: "o Mentes Sorridentes [nome do projeto] está a influenciar a minha vida". Porquê?, indagámos. "Antes explodia com muita facilidade, hoje quando me começam a chatear respiro fundo e tento controlar-me", responde. E resulta?, insistimos. "Bem, hoje sou mais amigo das outras pessoas e também tenho mais amigos".

"Ver a mudança acontecer"

Dulce Gonçalves, professora de Educação Especial, percebeu há dois anos, após usar os exercícios de respiração nos seus alunos, que tinha de alargar o mindfulness na escola. Juntou um grupo de oito professores e a psicóloga do agrupamento (Daniela Feio) e apresentou o projeto ao diretor.

No ano passado, após concluírem formação, essa equipa de docentes começou a fazer sessões de 20 minutos por semana a alunos, sinalizados por indisciplina, défice de atenção ou ansiedade, a professores e funcionários, durante oito semanas cada grupo. No final, o inquérito feito a professores e pais pelo Centro de Neurodesenvolvimento do Hospital Beatriz Ângelo, que monitoriza o projeto, confirmou que mais de 40% dos alunos melhoraram os níveis de atenção e reduziram a impulsividade.

Este ano, o mindfulness é o projeto que o agrupamento adotou no âmbito do Programa de Promoção do Sucesso Escolar. Oito das 9 turmas do 5.º ano fazem mindfulness não só nas sessões semanais como na sala de aula, com os professores que, no ano passado, se voluntariaram para receber formação. Cerca de 5 minutos de olhos fechados, respiram fundo e ouvem a voz do docente cada vez mais lenta e baixa até quase ser um sussurro. E relaxam.

"Tem um impacto maravilhoso", resume Teresa Loureiro - professora de Ciências e um dos membros da equipa do Mentes Sorridentes. "Vemos a mudança a acontecer nos alunos - mais calmos, mais focados, mais atentos. Às vezes quase não tenho de interromper a aula", sublinha.

Sofia, que já soma retenções, dá voz à mudança que sente em si: "antes ia para as aulas ansiosa. Dizia que não percebia mas na verdade estava é distraída e não ouvia nada". Miguel transitou este ano para o ensino secundário e saiu da escola básica mas pediu autorização para continuar a frequentar o Mentes Sorridentes. Aderiu ao projeto para aprender a controlar o nervosismo e a ansiedade. Sonha ser trompetista e queria "aprender tudo sobre respiração". Hoje, diz, é o truque que o ajuda a controlar os nervos antes dos concertos.

Ataques de pânico frequentes

"É uma realidade cada vez mais frequente os alunos terem ataques de pânico ou de ansiedade na escola", alerta Dulce Gonçalves. Para a docente, mais do que exercícios de relaxamento, o mindfulness "é uma ferramenta que lhes fica para a vida". A prática ensina-os a valorizar as pequenas vitórias da vida ou os bons momentos do dia-a-dia. Além de mais calmos, torna-os mais tolerantes, confiantes e felizes.

"É uma revolução silenciosa" porque o projeto está a crescer a partir dos alunos que ensinam aos pais e chamam outros alunos e professores", sublinha. "No final do outro ano letivo, distinguia-se nos corredores quem frequentava o Mentes: eram os mais sorridentes".

A psicóloga Daniela Feio, que confessa o ceticismo antes de fazer a formação, confirma os resultados: é um projeto que melhora a saúde escolar. "A capacidade de atenção/concentração dos alunos disparou. Mas também são notórias as melhorias ao nível das relações interpessoais, da redução da ansiedade, controle de impulsos e casos de depressão".

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