100 dias

Quando Marcelo é a fonte das notícias

Quando Marcelo é a fonte das notícias

Marcelo Rebelo de Sousa, protagonista de "atividade frenética" e provido de "mediatização intensa por parte da imprensa", criou aquilo que Felisbela Lopes batizou como "geringonça 2.0".

Ou seja, explica ao JN a investigadora na área dos media da Universidade do Minho, "uma versão mais elaborada, complexa e completa da geringonça", que se traduz "numa função, que é hoje mais robusta e perene", e que está "reformatada" depois de o presidente ter-lhe retirado "o bolor e a carga protocolar".

"Marcelo é um de nós", diz a docente. "Conduz o seu próprio carro, vai à praia sozinho e deixámos de ver os batedores da polícia como obstáculo."

O novo perfil do presidente traduz-se nas notícias que sobre ele se escrevem: mais de 75% dos títulos são positivos e quase metade dos textos (44,4%) ocupam quase uma página inteira. A conclusão resulta da análise realizada pela investigadora sobre os primeiros cem dias de Marcelo em Belém, tendo por base quatro diários: JN, DN, Público e Correio da Manhã.

Acresce, sublinha Felisbela Lopes, que 17% dos trabalhos são reportagens, o que é "cada vez mais raro nos jornais e, sobretudo, na política". Significa que "as redações mobilizaram-se para cobrir a agenda de Marcelo".

Outra característica da cobertura de Belém está relacionada com as fontes: mais de metade dos textos não têm contraditório, a voz da notícia tende a ser oficial (59,6%) e não raras vezes é a de Marcelo (32,6%). Possivelmente, diz, porque os jornalistas o instigam: 67% dos temas estão focados no desempenho do próprio cargo. A exceção está nos semanários: "não cobrem o dia, criam meta acontecimentos - e quase sempre sem fontes".