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Quatro anos a abastecer o automóvel à borla

Quatro anos a abastecer o automóvel à borla

Quando reserva um restaurante fora de Lisboa, Henrique Sanchéz pergunta se pode também dar de comer ao carro. Do outro lado da linha, faz-se sempre um silêncio que ele interrompe para explicar que possui um carro elétrico e que lhe dava jeito ligá-lo à corrente, enquanto janta.

Antes da conta, pede para acrescentarem a eletricidade à fatura, mas por ser insignificante - gasta 1,10 cêntimos por cem quilómetros - os gerentes dizem-lhe que "fica por conta da casa".

Os seus quatro anos de condução de um carro elétrico têm sido férteis em histórias caricatas e em poupança. O carregamento na rede pública tem sido à borla, explica o fundador da associação Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE). Tem sido gratuito para ele e para os 1150 automóveis elétricos comprados desde 2000, números da Associação Automóvel de Portugal, ACAP, que reúne vendas do setor.

Isto porque "o último Governo PSD/CDS deixou em suspenso o projeto-piloto de incentivo à mobilidade elétrica, lançado pelo anterior governo em 2010, que tinha colocado Portugal na linha da frente nesta matéria". "Como havia centenas de carros vendidos, não podiam acabar com a rede pública de abastecimento, poderia trazer complicações a nível jurídico", explica. Mantiveram-se os postos (rede Mobi.e), explica, mas como não foi criada legislação que "viesse dar um enquadramento à comercialização da energia, nem estes foram explorados nem as empresas privadas o puderam fazer".

Poupou 22 mil euros

"Como muitas coisas neste país", diz, "tudo isto ficou em terreno de ninguém e, durante quatro anos, abasteci o carro na rede a custo zero". O ex-ministro do Ambiente, Moreira da Silva, ainda tentou ressuscitar a mobilidade elétrica, em 2015, mas o dossiê está por fechar.

Henrique Sanchéz, 61 anos, optou pelo carro elétrico por razões ecológicas, mas, não fosse ele gestor de profissão, também tem bem presente quanto poupou. Ao todo, 22 mil euros, sendo que a viatura custou 37 mil.

Não gastou 4000 euros em gasóleo por ano; em incentivos foram-lhe devolvidos 5000 euros após a compra; cancelou a mensalidade do estacionamento na Baixa de Lisboa (teve direito a um cartão da Emel anual pelo custo de 12 euros que lhe permite estacionar em qualquer local). E há ainda a isenção do imposto automóvel e a baixa manutenção - não muda o óleo e a revisão custa 50 euros.

Assume-se como um apaixonado por esta tecnologia não poluente e não ruidosa. "Repare como o carro é silencioso. Os bancos são feitos de plástico de garrafa reciclado", sublinhando que não se nota. O tecido é aveludado e macio ao tato e 95% da viatura é reciclada.

O preço do carro elétrico é o principal obstáculo à vulgarização, embora já os haja por 20 mil euros. A mulher comprou um veículo elétrico este ano, adotando um sistema de aluguer de bateria. A questão da autonomia, a principal crítica dos céticos, pode ser contornada para quem tem garagem, ficando a a carregar à noite.

Reconhece que possuir um carro elétrico implica um certo estilo de vida e capacidade de planeamento. "O carro é ideal para quem gosta de passear, andar pelas estradas nacionais". Não que não atinja rapidamente os 160 quilómetros hora, que atinge, mas uma condução dessas gasta mais a bateria.

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