Greve climática

Rebelião estudantil avisa Governo que "não há planeta B"

Rebelião estudantil avisa Governo que "não há planeta B"

Centenas de estudantes faltaram às aulas e rumaram aos Aliados, no Porto, numa rebelião pacífica e de alerta aos adultos, sobretudo ao ministro do Ambiente, para a necessidade urgente de medidas que evitem a extinção do planeta.

Liliana Jesus cobriu o corpo com um fato branco e colocou uma máscara no rosto. Não passa despercebida entre as centenas de crianças e de jovens concentrados aos pés do edifício da Câmara Municipal do Porto. A menina de 21 anos receia que um fato de descontaminação seja a sua indumentária num futuro próximo, em vez das calças de ganga e da t-shirt. A imagem de choque que trouxe de Matosinhos para o centro da Invicta é testemunho da urgência de uma intervenção que trave o aquecimento global.

"Estamos a viver num mundo bastante poluído. É preciso chegar este alerta a todos, para que saibam que, infelizmente, daqui a uns anos podemos estar todos mortos, se continuarmos a viver desta forma. Poderá não haver um futuro para nós, para os nossos filhos e para os nossos netos", lamenta a Liliana, que junta a sua voz à de centenas de jovens que clamam a plenos pulmões: "Não há planeta B". As mensagens da manhã numa manifestação alegre e ordeira foram disparadas ao Governo e, em particular ao ministro João Pedro Matos Fernandes. "Senhor ministro explique por favor, por que é que no Inverno ainda faz calor?". O verso de luta não destoa da manhã desta sexta-feira, plena de sol e que levaram muitos manifestantes a trocarem os casacos pelas t-shirts. "Há medidas a tomar, todo o Governo anda a brincar, pensei bem quero dizer que o planeta está a aquecer", entoaram em alternativa o grupo de protesto, que teve apoio da família para trocar a sala de aula pela rua.

Nem todos puderam fazê-lo, apesar da vontade de ali estar, conta Gabriela Gomes, da Escola Básica e Secundária do Padrão da Légua, em Matosinhos, cuja clareza de discurso faz espantar que tenha apenas 13 anos. "A greve é um choque para que os adultos acordem. Há alunos que não puderam vir cá, porque foram proibidos pelos pais. Esta manifestação não é um por favor, é um ajam", atenta a menina, do alto da rampa de acesso aos Paços do Concelho. Pelo caminho ainda ouviu recados desagradáveis, recorda, a seu lado, o amigo Rodrigo Torres, também de Matosinhos e com os mesmos 13 anos, pedindo a palavra. "Houve uma coisa que nos chocou quando vínhamos para aqui: uma senhora idosa disse à Gabi para ir para a escola e fazer-se mulher. As pessoas não sabem que, dentro de pouco mais de uma década, podemos não estar neste planeta".

O dramatismo de uma extinção futura e a exigência de medidas ao Governo, como a aposta nas energias renováveis (sobretudo o solar) em detrimento do carvão, do gás e do petróleo, pintaram quase todos os cartazes. E fazer greve às aulas neste momento, em véspera de exames, é um sacrifício para os estudantes que Isabel Costa, 18 anos e aluna do curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, está bem consciente. E fez dessa consciência um cartaz. Num retângulo de cartão, traçou a sua opção que é comungada por centenas de jovens presentes no protesto. "Posso sempre ir a recurso, o planeta é que não", segura entre mãos.

"Estou a perder aula importantes, mas acho que vale a pena", reconhece a futura engenheira, que questiona a utilidade futura do seu canudo num planeta extinto. "Não temos outra oportunidade para salvar o planeta. De que vai ser útil o meu curso se não tiver um planeta para viver?"

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