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Refugiados desafiados a trabalhar na agricultura e no turismo

Refugiados desafiados a trabalhar na agricultura e no turismo

O Governo pretende mobilizar os refugiados acolhidos no território a trabalharem na agricultura e no turismo, dois setores de atividade onde é sentida falta de mão de obra. A medida de deslocar refugiados para o interior do país está estabelecida no Programa de Valorização do Interior, aprovado em julho, no que respeita à integração de pessoas refugiadas em Portugal.

O modelo português de acolhimento de beneficiários de proteção internacional já conta com o envolvimento de cerca de cem municípios, de norte a sul do país, confirmou ao JN o Ministério da Presidência.

"Conhecidas que são as necessidades em determinados setores de atividade, de que são exemplo, o turismo, a agricultura, a pecuária, a exploração florestal, a metalurgia e metalomecânica, o calçado, as tecnologias de informação e conhecimento, entre outros, pretende-se levar a cabo iniciativas que fomentem a integração no mercado de trabalho: formação, estágios, emprego e empreendedorismo", acrescenta fonte oficial do ministério de Maria Leitão Marques. Desconhece-se, por enquanto, a verba destinada para esta matéria no Orçamento do Estado, por ainda estar "em elaboração".

Exemplo desta estratégia, aponta a tutela, é o curso-piloto de formação de cozinha/restaurante, já realizado em Lisboa e cujos formandos, refugiados, já estão em fase de estágio. Desenvolvida em parceria pelo Alto Comissariado para as Migrações e o Turismo de Portugal, a iniciativa dará lugar a outras edições, nesta e noutras áreas associadas ao turismo, em vários municípios do país.

Fundão já recebeu 19

Às medidas promovidas pelo Governo somam-se as desenvolvidas ao nível local, como é o caso do Município do Fundão, com capacidade instalada para o acolhimento de migrantes, com perfil e interesse em trabalhar na área da agricultura.

O acolhimento de pessoas refugiadas pode constituir uma oportunidade, defendeu ao JN o presidente da Câmara do Fundão, Município que recebeu 19 refugiados no passado dia 25.

O acolhimento deste grupo, planeado para um período de 18 meses, assenta na "melhor integração possível" ao nível socioprofissional, o que poderá passar pelas áreas da agricultura e floresta, segundo Paulo Fernandes.

"Estando integrados num espaço que tem uma quinta, considerámos que um programa associado à formação na área agrícola e na área florestal poderia ser interessante no seu processo de integração", explica o autarca. Tal não inviabiliza que se pensem e procurem outras possibilidades, com base no perfil de conhecimentos e capacidades de cada pessoa, bem como a sua vontade, ressalva o autarca.

No quadro do esforço europeu e do programa de reinstalação de refugiados que Portugal subscreveu e apoia, serão reinstaladas, adianta o Governo, 1010 pessoas refugiadas em território nacional até ao final de 2019.

Fugidos da Eritreia encontraram em Idanha-a-Nova um futuro

O projeto de integração de dois refugiados na agricultura em Idanha-a-Nova foi reconhecido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) como um bom exemplo de acolhimento.

Abrham Kidane, solteiro de 30 anos, terminou há dias a campanha da apanha de mirtilos nos campos da Sociedade Hortas de Idanha-a-Nova. Chegou ao concelho raiano em 2016 com um outro refugiado que está atualmente em férias no Egito para tentar trazer a filha e a mulher. Aos dois muçulmanos da Eritreia juntou-se, em março, Bashit Mohamednor, de 35 anos, que não está a trabalhar por se encontrar doente.

Enquanto não volta para o campo agrícola, Abrham Kidane frequenta aulas de inglês numa das salas que a Sociedade Filarmónica de Idanha-a-Nova empresta à universidade sénior local. A professora voluntária é Eugénia Lyubykh, uma russa instalada no concelho. Três vezes por semana, durante três horas, é ali que se trabalha a integração oral. "A dicção é o mais difícil", reconhece a professora, porque "eles já trazem algumas noções básicas sobre a identificação das coisas". Bashit Mohamednor, o mais recente aluno, revela maiores dificuldades.

Abrham Kidane e o colega que se encontra de férias estão satisfeitos: têm um vencimento mensal garantido e querem construir futuro em Idanha-a-Nova. "Não nos falta nada. As pessoas são tranquilas, fazemos a nossa vida normalmente, não somos muito de sair. Como moramos fora da localidade, um carro faz falta e por isso estou a pensar tirar a carta de condução", conta Abrham Kidane. A integração no país foi fácil: "O clima é idêntico ao da Eritreia. O que mais me admirou foi os poucos condimentos que os portugueses colocam na comida. O pão que fazemos também é melhor, não leva fermento".

"Só me falta a família"

Bashit Mohamednor, um soldado que abandonou a guerra e que ficou escondido em casa seis meses até decidir fugir para arranjar um futuro para si, mulher e filha de nove anos, quer trazer a família para Idanha-a-Nova. "Nos últimos três anos, estive em fuga, até chegar a um campo de refugiados em Itália. Vim para Portugal, gosto deste local, acho que me daria bem aqui. Só me falta a família", refere.

O Município de Idanha-a-Nova renovou em maio com o Centro Nacional de Refugiados o protocolo que visa o acolhimento e a integração destes migrantes, que prevê o acolhimento de mais 14 cidadãos, incluindo mulheres, num edifício já recuperado. Dos 31 que o Idanha já recebeu, restam três. O Gabinete de Ação Social trata de tudo: desde as aulas de português, a inscrições na Segurança Social, Finanças, centro de emprego e centro de saúde.

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