Nacional

Salazar caiu da cadeira faz domingo 40 anos

Salazar caiu da cadeira faz domingo 40 anos

O princípio do fim de Salazar começou a 03 de Agosto de 1968, faz domingo 40 anos, no terraço do Forte de Santo António, no Estoril, quando o calista Augusto Hilário se preparava para lhe tratar dos pés.

Hilário emprestou-lhe o "Diário de Notícias". O ditador de Santa Comba Dão, que governava o país com punho de ferro e era "muito cabeça no ar", como recordava o seu barbeiro Manuel Marques, deixou-se cair para uma cadeira de lona.

Com o peso, António Oliveira Salazar tomba para trás. Com violência, cai no chão e a cabeça dá uma pancada nas lajes do terraço do forte onde anualmente passava as férias, acompanhado pela governanta, Maria de Jesus, a famosa D. Maria.

D. Maria, e Hilário, que estava a lavar as mãos numa bacia, precipitam-se para Salazar. Ele levanta-se, atordoado. Queixa-se de dores no corpo, mas pede segredo sobre a queda nem quer que chamem os médicos - é o que conta Franco Nogueira, no livro "Salazar, Volume VI - O Último Combate (1964-70)".

Outra testemunha, o barbeiro Manuel Marques, contou Fernando Dacosta, na revista Visão, em 1998, contraria esta tese. Afinal, Salazar não caiu na cadeira de lona, já desaparecida, mas tombou no chão desamparado.

Diz o barbeiro que Salazar "não se apercebeu, nessa manhã que a cadeira, onde se deveria instalar, se encontrava fora do sítio". "O dr. Salazar era muito educado, mas muito cabeça no ar", lembra. 

Internado no hopsital S. José em Segredo

A vida de António Oliveira Salazar prossegue normal. Hilário trata as unhas do ditador e só três dias depois é que o médico do presidente do conselho com o que se passou ao seu médico, Eduardo Coelho.

A 19 de Agosto, embora mal disposto, o chefe do executivo vai ao Palácio de Belém para assistir à posse daquele que viria a ser o seu último governo.

Só 16 dias depois, a 04 de Setembro, Salazar admite que se sente doente - "não sei o que tenho". A 06 de Setembro, à noite, sai um carro de São Bento. Com o médico, Salazar e, no lugar da frente, o director da PIDE, Silva Pais.

Envolto na noite e em segredo - a Censura encarregava-se de evitar qualquer notícia -, Salazar é internado no Hospital de São José e os médicos não se entendem quanto ao diagnóstico - hematoma intracraniano ou trombose cerebral -, mas concordam que é preciso operar, o que acontece a 07 de Setembro.

Só nesse dia sai o primeiro boletim clínico e se resume a uma frase: "O sr. Presidente de Conselho foi operado esta noite de um hematoma, sob anestesia local, encontrando-se bem".

Desmaio no Centro de Saúde de Benfica

A 16 de Setembro, o ditador desmaia, no Centro de Saúde de Benfica, onde ficou internado, e a situação agrava-se com uma hemorragia no cérebro. A médicos e até ao Cardeal Cerejeira é exigido segredo.

Nove dias depois, o presidente Américo Tomás é informado pelos médicos de que "a vida política de Salazar está terminada" e começam os contactos para formar um novo governo.

A 26 de Setembro, Tomás anuncia a substituição de Salazar e no dia seguinte Marcelo Caetano toma posse. O ditador tinha governado Portugal 40 anos, quatro meses e 28 dias.

O país é informado da substituição de Salazar por Marcelo, que dá início a uma tentativa de abertura do regime, mas o professor de finanças públicas foi o único a pensar que ainda estava na cadeira do poder.

A encenação à volta do ex-presidente do conselho deposto durou ainda dois anos.

"Há uma ficção de tragédia posta em teatro: Salazar vivendo na residência oficial do chefe de Governo. Salazar recebendo ministros, embaixadores, jornalistas estrangeiros. Salazar discutindo política, concedendo entrevistas. E Salazar sendo somente um grande inválido despojado de todo o poder terreno, cidadão como os outros, sem dúvida carregado de passado, de história, de simbologia nos seus princípios, e do poder próprio de uma autoridade moral", escreve Franco Nogueira.

A 15 de Julho de 1970, é acometido por uma grave "doença infecciosa" e 11 dias depois Salazar agoniza com perturbações cardiovasculares, funções renais, edema pulmonar. Gomes Duarte, pároco da Estrela, dá-lhe a extrema-unção.

Os médicos declararam a morte de António Oliveira Salazar às 09:15 de 27 de Julho de 1970. Morreu aos 81 anos.

ver mais vídeos