Seca

Tejo "praticamente morto" em Espanha já cheira mal em Portugal

Tejo "praticamente morto" em Espanha já cheira mal em Portugal

A imagem da nascente seca do rio Douro, em Espanha, alarmou os portugueses, na semana passada. Mais a sul, o cenário é pouco melhor. O Tejo definha a cada dia e as consequências estão aos nossos pés.

Castela-La Mancha, uma das quatro regiões espanholas atravessadas pelo Tejo, denunciou a qualidade duvidosa da água do rio, "praticamente morto", afetado pela mais grave seca dos últimos anos e vítima da política de transvases para as regiões do sudoeste de Espanha, que vivem da agricultura intensiva.

Segundo a Confederação Hidrográfica do Tejo, as reservas de água caíram para 282 hectómetros cúbicos, o que equivale a 11,8% da capacidade total de armazenamento da bacia de Entrepenas e Buenia, na cabeceira do Tejo, que na última semana perdeu 3,8 hectómetros cúbicos de água.

"Não há água", lamentou a conselheira das Finanças de Castela-La Mancha, Augustina García Élez. "Os pântanos estão numa situação alarmante", acrescentou, citada pelo jornal "La Vanguardia", antes de uma reunião com a ministra espanhola da Agricultura, Isabel García Tejerina.

"Há 30 anos, tínhamos belas praias fluviais e e as crianças banhavam-se nas águas", lembrou Rosa Prieto, da associação espanhola Rio Tejo Vivo, ouvida pelo jornal "Le Monde", de França. "Agora está tudo perdido", acrescentou, desolada com a lama que inunda o rio.

"Esgotado pelo saque"

O eurodeputado do PSOE, Sergio Gutiérrez, sublinhou que o Tejo está "degradado e esgotado pelo saque brutal que sofre na forma de transvases, especialmente nos últimos anos" e considerou necessário mudar o modelo de gestão de recursos hídricos em Espanha para garantir a sustentabilidade ambiental daquele rio.

Numa carta enviada ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e revelada pelo jornal "La Verdad", o eurodeputado socialista pede que seja modificado o planeamento hidrológico do Tejo e que se encontrem alternativas para os transvases, ante o "estado terrível" das reservas da bacia de Entrepenas e Buenia.

Engenheiros do governo regional, diz o "Le Monde", falam de eutrofização para definir o processo de degradação das águas do rio Tejo, que se traduzem em odores, margens apodrecidas e na presença de algas nocivas e espumas tóxicas.

"O terrível estado dos pântanos está a ter as consequências para a bacia do Tejo Médio, como espumas em Toledo, ou pragas de insetos e bolsas de algas na região de Talavera. Tudo consequências do aumento das temperaturas, da estagnação das águas e, portanto, da ausência de caudal", concluiu Gutiérrez.

Do lado português já cheira mal

Do lado português da fronteira, já se sentem esses efeitos da fragilidade do caudal do Tejo. A Câmara de Nisa, Portalegre, exigiu, terça-feira, ao Governo medidas de combate à poluição do rio Tejo, alertando que desenvolveu recentemente ações de recolha de peixes mortos junto à Central Hidroelétrica da Velada. Também por causa das celuloses do lado português e das descargas que têm sido sucessivamente denunciadas pelos movimentos de defesa do Tejo.

"Exigimos e defendemos, junto das autoridades competentes, medidas realmente efetivas e duradouras de combate à grave poluição que afeta o rio Tejo, porque a sustentabilidade do nosso território e das comunidades que nele habitam só se coaduna com um rio vivido e com vida, em toda a sua plenitude", lê-se num comunicado publicado na página do município na Internet.

A autarquia informa que enviou, "no início do mês de novembro", um ofício ao ministro do Ambiente alertando a tutela para a necessidade de se proceder à "construção de uma solução válida, duradoura e sustentável" para elevar o rio Tejo. Texto publicado dois dias depois da visita do ministro do ambiente a Vila Velha de Rodão e Nisa.

"Aquilo que vi foi um rio que, não tendo nenhum problema aparente de poluição - não havia peixes mortos -, tinha menos água do que a expectativa", disse o ministro João Matos Fernandes.

Negociar com Espanha

Segundo referiu o governante, era visível, no domingo, "que a água era mesmo pouca, apesar de Espanha cumprir a Convenção de Albufeira". Para enfrentar a poluição, além de intensificar os mecanismos de fiscalização naquela zona, realçou, é necessário aumentar a quantidade de oxigénio que existe naquela massa de água e isso faz-se, sobretudo, com mais água. Por isso, quer negociar com Espanha a medição diária do caudal.

"Temos de tentar tudo para que não seja um número contado à semana, mas sim contado ao dia", ou seja, "ter uma nova obrigação de volume mínimo diário e não de volume semanal", explicou João Matos Fernandes.

Como já tinha dito aos deputados na quarta-feira, na discussão do Orçamento do Estado para 2018, o ministro apontou que "não é boa ideia discutir caudais em ano de seca, isso não se faz e Portugal não irá fazer".

"Mas é mesmo importante que haja uma maior continuidade na água que vem de Espanha para Portugal", insistiu.

"Temos de ter uma maior capacidade para gerir aquela massa de água, é isso que não temos tido e, a partir de um conjunto de pequenas decisões que foram ontem [domingo] tomadas internamente e serão tornadas públicas a seu tempo", isso poderá acontecer, acrescentou o ministro, sem concretizar que tipo de ações foram planeadas a partir da visita ao Tejo.

João Matos Fernandes referiu ainda que não irá mudar o plano de bacia hidrográfica, mas que este permite que muitas coisas possam vir a ser feitas.