De Porto a Beja até Lisboa

A história do homem que voou preso no porão de avião

A história do homem que voou preso no porão de avião

Só um quarto de hora depois de o avião da TAAG (Linhas Aéreas de Angola) descolar do Aeroporto Francisco de Sá Carneiro, no Porto, é que os colegas de Telmo Silva deram pela falta dele.

Procuraram-no por toda a parte: nas salas de descanso, nas casas de banho e até no parque de estacionamento, onde o carro continuava parqueado. O telemóvel e o rádio não davam sinal.

Passado o aeroporto a pente fino, restava apenas uma hipótese - considerada remota, de tão incomum na aviação. Telmo, chefe de equipa, poderia ter ficado trancado no porão do Boeing 777 que tinha ajudado a carregar e que descolara, rumo a Luanda, às 10.14 horas. A torre de controlo foi avisada e o piloto do voo DT655, que já ia perto de Beja, alertado de que poderia estar um funcionário no porão.

O avião voltou para trás e aterrou em Lisboa às 10.58 horas, com o INEM preparado para intervir, se necessário. Telmo Silva estava mesmo no porão e foi levado, em hipotermia, para o Hospital de Santa Maria, onde, ontem ao final do dia, continuava internado, estável e em observação.

Tudo aponta para que tenha perdido os sentidos quando acomodava dois cães no porão do avião. "Caso contrário, e tendo consigo um rádio e um telemóvel, teria pedido ajuda antes de o Boeing 777 descolar do aeroporto do Porto", acredita o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (SITAVA).

Fernando Henriques ressalva ainda que Telmo Silva não deveria estar a desempenhar funções de operador de carga, uma vez que é chefe de equipa. O sindicato atribui, aliás, a falha à falta de recursos humanos da Portway, que está a braços com um processo de despedimento coletivo. Até ao final de novembro, serão dispensados 40 trabalhadores no Porto e, desde março, altura em que as dispensas foram anunciadas, outros 80 saíram voluntariamente. "Temos vindo a alertar, nos últimos meses, para o perigo de a empresa deixar de assegurar padrões de segurança e qualidade", avisa.

Por norma, cada avião tem uma equipa de seis pessoas para tratar da descarga e da carga do porão. Mas, segundo o SITAVA, a Portway "deixou de assegurar esse número de profissionais" e o serviço tem sido feito "de forma desorganizada e com poucos trabalhadores". Telmo Silva tinha entrado ao serviço às 8 horas e o voo da TAAG seria já o quinto que estaria a carregar.

O incidente terá agora de ser investigado pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA), sendo importante o testemunho do funcionário que fechou a porta do porão e que teria, segundo os procedimentos, de verificar o seu interior. E Telmo Silva também terá de ser ouvido no processo.

Entretanto, a transportadora angolana TAAG e a ANA-Aeroportos já garantiram que vão abrir inquéritos ao incidente. O JN contactou a Portway, que não quis comentar o caso até ao fecho desta edição. O voo aterrou em Luanda às 20.20 horas.

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