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Investigadores do Minho preferem contratos a bolsas

Investigadores do Minho preferem contratos a bolsas

Quase todos os investigadores doutorados ligados à Universidade do Minho defendem a substituição das bolsas de pós-doutoramento por contratos a termo, mesmo que isso implique perderem alguns lugares, na ordem de três bolsas para dois contratos.

Ao todo, 96% dos 161 inquiridos revelaram essa vontade.

O ministro da ciência e Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, já conhece a proposta da Universidade do Minho mas ao JN preferiu não a comentar.

Está na altura de pôr um basta na situação atual", declara Nuno Cerca, representante dos investigadores doutorados do conselho científico na escola de engenharia da Universidade do Minho. O plano implica a redução do valor a ganhar por mês, embora não implique diminuição no vencimento líquido anual. É que para garantir os 14 meses de rendimento, a prestação mensal teria de cair de 1490 euros, de acordo com a tabela de 2015, para pouco mais de 1250 euros.

A equação, explica Nuno Cerca, pressupunha o compromisso de não alterar o rendimento líquido anual do pós-doutorado, tendo em conta o subsídio de alimentação, férias e compensação para cessação de trabalho. Nas contas finais, poderia até haver um acrescento anual na ordem dos 4%, considerando o acrescendo do subsídio atribuído por refeição.

Mas não poderia fazer-se esta viragem para os contratos sem alterar o número de investigadores contemplados? Nuno Cerca considera que essa é uma falsa questão. "Um dos custos desta proposta pressupõe o corte de um terço dos lugares, mas temos de ter em conta sempre que essa divisão recaí sobre o financiamento a atribuir à ciência".

O que está essencialmente em causa é a "dignificação de um trabalho e de uma carreira", sublinha Nuno Cerca. Por não terem horários rígidos e serem considerados bolseiros, os investigadores sentem pouca aceitação social, ou mesmo desvalorização, quando são eles representantes privilegiados do país.

"Lá fora, Portugal não é só Cristiano Ronaldo, como antes foi o Figo. Hoje os cientistas portugueses participam em conferências internacionais e as suas descobertas destacam-se nos campos em que trabalham". Enquanto isso, "estão completamente à margem da sociedade. Não têm direito a subsídio de desemprego como qualquer outro trabalhador", lembra. O principal problema tem a ver com falta de garantias sociais, uma situação que se agrava no caso das mulheres, por causa da maternidade.

André Janeco, presidente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), compreende que individualmente se faça esta preferência, embora "do ponto de vista político possa significar uma diminuição efetiva de investigadores, numa altura em que os recursos humanos em ciência estão longe de estarem saturados". No seu entender, este tipo de solução está veiculada à ideia de um orçamento estanque, que não será o mais adequado quando o objetivo é investir em ciência, o que quer dizer em investigadores.

Uma das suas primeiras iniciativas deste governo foi criar um grupo de reflexão para criar novas linhas de orientação para as bolsas Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), aguardando-se as medidas concretas. Sobre o emprego científico, avançou a intenção de reforçar as oportunidades mas o facto de apontar a hipótese de flexibilização suscitou duras críticas da comunidade científica. E o Sindicato Nacional do Ensino Superior questiona se a flexibilização não significa mais emprego precário.

Sacrificar licença de maternidade

Teresa Matamá, 39 anos, residente em Paços de Ferreira, investigadora da Universidade do Minho, conciliou a sua atividade de investigadora com o papel de mãe - tem dois filhos, um com seis e outro com dois anos - sem poder usufruir de uma adequada pensão de maternidade. Ao segundo filho, depois de três meses, viu-se obrigada a voltar ao trabalho. Como os bolseiros descontam inscrevendo-se na modalidade seguro social voluntário, pagando 124 euros, os subsídios sociais são nivelados por baixo, no caso, à volta de 400 euros.

Ainda hoje, se não fosse o apoio dos pais e sogros, a sua vida familiar teria uma logística intrincada. São eles que vão buscar as crianças à escola e vão ajudando. O marido trabalha longe de casa e os turnos, por vezes de 10 horas, roubam-lhe o tempo para dar assistência aos filhos.

Teresa Matamá usufriu de uma segunda bolsa de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e tal como muitos outros tem dificuldade em poder pôr uma baixa no trabalho ou conseguir um empréstimo para habitação. O truque é não entregar a baixa. "Optamos por não comunicar que estamos doentes e assumimos que vamos repor essas horas". Tem estado a trabalhar a dobrar para cobrir o tempo em falta devido a uma intervenção cirúrgica, sacrificando mais uma vez o tempo em família. Quando fala na família, a voz sai embargada. Odisseia foi também convencer o banco a conceder-lhe um empréstimo para comprar um apartamento. "Se não arranjasse fiadores, seria impossível".

Teresa Matamá prefere os contratos às bolsas, mesmo que se possam perder alguns candidatos, não só por causa da ausência de apoios sociais mas sobretudo pelo reconhecimento que podem ganhar. "Ninguém compreende o nosso trabalho, a existência do contrato poderia mudar as mentalidades. Nós produzimos conhecimento e isso tem valor".

Nos poucos meses que esteve sem bolsa FCT, conseguiu ter suporte financeiro através de um dos centros para onde trabalha. Neste momento, investiga na área da biologia o folículo do cabelo, mais propriamente, e procura compreender a base genética que justifica a origem do aspeto do cabelo.