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1939 - 2021

Jorge Sampaio, o pai da "geringonça" que negociou com Cunhal aliança histórica

Jorge Sampaio, o pai da "geringonça" que negociou com Cunhal aliança histórica

João Soares, número dois de Sampaio em Lisboa, e o então vereador do PCP Vítor Costa recordam coligação.

Numa "geringonça" autárquica sem precedentes, Jorge Sampaio, secretário-geral do PS, surpreendeu o partido ao assumir a candidatura à Câmara de Lisboa em 1989, levando consigo como número dois João Soares, que há muito insistia em encabeçar a lista. Sampaio negociou com o líder comunista Álvaro Cunhal, ajudado pelo histórico Carlos Brito. O PCP, que já tinha anunciado Rui Godinho, aceitou entrar na coligação que derrotou Marcelo Rebelo de Sousa, durou mais dois mandatos e foi alargada, entre outros, à UDP e ao PSR. A meio do segundo mandato, em 1995, Sampaio passou o lugar ao filho do presidente Mário Soares, para ganhar Belém contra Cavaco Silva. Duas décadas depois, António Costa, seu discípulo, faz uma "geringonça" em forma de Governo, assinando acordos com PCP e Bloco.

Quando Sampaio chegou a líder em 89, contra Jaime Gama e após Vítor Constâncio bater com a porta, continuava o problema da escolha para Lisboa. João Soares mantinha a pressão. "Insisti que gostava de ser candidato, assumi sempre a paixão pela cidade e tinha propostas", recordou ao JN. O líder terá convidado, sem sucesso, Guterres, que viria a ser seu rival.

"Quando teve de tomar a decisão, surpreendeu muita gente e disse: "o candidato a Lisboa sou eu e levo-te a ti como número dois", conta João Soares, recordando que, até então, Sampaio não era adepto de um entendimento à Esquerda. Mas acabou por ser o pai da "geringonça", como classifica o ex-dirigente Álvaro Beleza.

O líder aconselhou-se com Costa, seu estagiário como advogado no escritório que partilhava com Vera Jardim.

João Soares nota que o PS não liderava juntas e o PCP tinha pelo menos uma dúzia. Hoje, lembra o sucesso da maioria liderada por Sampaio, "muito culto e com uma capacidade de argumentação fantástica".

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Do PCP, José Saramago foi o candidato à Assembleia. Dos vereadores, destaque para Rui Godinho e Vítor Costa.

"Deu muito a Lisboa"

Vítor Costa, diretor-geral da Associação Turismo de Lisboa, conheceu Sampaio nessas eleições: "Enquanto vereador do PCP, participei no projeto de coligação que abriu uma nova fase de modernidade, afirmação e desenvolvimento para Lisboa, antes uma cidade provinciana e triste. Durante este processo, testemunhei algumas das suas qualidades".

"Aliando uma visão estratégica a uma capacidade tática surpreendente, concretizou a única coligação de Esquerda até hoje feita, encabeçando-a apesar de ser secretário-geral do PS. Na gestão da coligação e dos principais dossiês, mostrou habilidade, paciência, capacidade de ouvir e estabelecer pontes e plataformas, decisivas para o enorme sucesso daquela experiência política", disse ao JN.

Além do "humanismo", refere o "fino sentido de humor, demonstrativo da sua inteligência". "Uma vez, numa pausa da campanha e após visitas traumáticas a bairros de barracas como a Musgueira, Curraleira e Quinta dos Peixinhos, fiquei por acaso uns momentos a sós com ele perto de casas muito degradadas, pertencentes ao município. Perante a placa da Câmara desabafou, algo desanimado: "Você já viu isto! Estamos tramados". Respondi-lhe: "deixe lá, pode ser que a gente perca". Riu-se com gosto e retomou confiante a descida da Almirante Reis, rumo à vitória", conta Vítor Costa. Sampaio "deu muito a Lisboa e a Portugal. Não será esquecido".

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