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Jornalismo é uma arma no combate à pandemia

Jornalismo é uma arma no combate à pandemia

Uma investigação, levada a cabo por três universidades portuguesas e um centro de investigação, revelou que a cobertura noticiosa intensa contribuiu para o sucesso do primeiro confinamento no país. O jornalismo provou a sua eficácia no combate à pandemia e será decisivo no próximo desconfinamento, dizem investigadoras.

Enquanto se alastrava de forma descontrolada pelo mundo, a covid-19 foi ganhando espaço nos meios de comunicação. Em Portugal o cenário não foi diferente e os média assumiram um papel crucial na contenção da propagação do vírus na primeira vaga. Esta foi a conclusão de uma investigação que analisou cerca de três mil notícias durante as vagas pandémicas que assolaram o país.

"Na primeira vaga, a situação epidemiológica não era tão grave quanto pensávamos, mas a cobertura noticiosa foi muita intensa e antecipou-se ao agravamento do quadro sanitário, contribuindo para orientar o comportamento dos cidadãos no sentido de se protegerem", explica Felisbela Lopes, investigadora da Universidade do Minho e
coordenadora do trabalho.

No entanto, esta intensidade noticiosa não se verificou nos meses seguintes. Os dados do estudo mostram que o número de notícias sobre a covid-19 publicadas ao longo da primeira vaga foi três vezes superior às da terceira. "Estas oscilações podem ter consequências. Importa reconhecer o papel do Jornalismo e fazer dele parceiro em situações de crise sanitária", defende Rita Araújo, investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

A própria natureza das notícias foi alterando-se com o decorrer da pandemia. Numa fase inicial, as notícias foram retratos epidemiológicos e focaram-se nas temáticas do trabalho e da educação. Na segunda vaga, a atenção mediática debruçou-se sobre os temas sociais, a política nacional e ainda destacou as investigações médico-científica, devido aos avanços das vacinas. Já na terceira vaga, as notícias tiveram um tom particularmente negativo, ao fazerem retratos de situação e a focarem-se no número de vítimas mortais.

As fontes de informação também foram analisadas e, como seria expectável, o Governo é quem centra a comunicação sobre a gestão da pandemia nos períodos de maior tensão, com o primeiro-ministro a ocupar o lugar de destaque. No entanto, a temática da pandemia abriu as portas do espaço mediático a outras fontes, nomeadamente a profissionais de diferentes áreas e aos especialistas.

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A importância da comunicação para o sucesso do próximo desconfinamento

Na próxima quinta-feira, o Governo vai anunciar o plano de desconfinamento para o país e a coordenadora do trabalho, Felisbela Lopes, garante que a única forma de assegurar o sucesso desta nova fase da pandemia é através de uma estratégia de comunicação "eficaz e regular".

Na opinião da investigadora, o futuro da pandemia está dependente do que vai acontecer na quinta-feira, porque se por um lado o processo de decisão política é o mais importante, não se pode minimizar o impacto da estratégia de comunicação.

"[A comunicação ao país] deve ser centrada na figura do primeiro-ministro e se o confinamento for feito por fases aquilo que o primeiro-ministro deve fazer é explicar bem o que está em causa em casa fase, mas não cair na tentação de entrar nas medidas de cada fase", alertou a investigadora.

É preciso evitar "erros do passado" e diminuir ao máximo as comunicações de outros políticos para não confundir as pessoas. "Não se deve cair na tentação de multiplicar aqui comunicações de vários governantes porque entram em contradição e dão dados diferentes às pessoas" e acaba por ter um efeito contrário do pretendido, afirma Felisbela Lopes.

Esta investigação defende a tese de que o jornalismo é uma arma eficaz no combate à pandemia, mas a comunicação mediática também depende da comunicação que as fontes oficiais fazem.

O estudo, que incidiu sobre dois jornais diários (Jornal de Notícias e Público), integra um projeto de investigação mais alargado, que visa analisar a Comunicação de Saúde sobre covid-19 em Portugal.

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