Moçambique

José está retido com três filhos e a mulher em Maputo

José está retido com três filhos e a mulher em Maputo

José Fonseca já vinha para Portugal antes da pandemia. O engenheiro de Vila do Conde já tinha vendido a casa e o carro em Maputo. Agora, não tem como voltar para a terra natal e está com três filhos e a mulher sem solução de regresso.

José é um dos cerca de 20 portugueses que ia embarcar no voo da TAAG, com escala em Luanda, Angola, e destino final a cidade do Porto, quarta-feira. O voo foi cancelado.

"Já não tenho carro, nem casa e neste momento estou desalojado com os meus filhos e a minha mulher", conta. "Estamos numa situação muito complicada e agora não há volta. Estivemos no aeroporto até muito tarde e depois fomos para casa de uns amigos".

No caso de outros portugueses, a situação complica-se por não terem qualquer elo de ligação no país. "Há pessoas em circunstâncias mais difíceis, estão em hotéis que não são nada baratos e sem saberem por quanto tempo".

"Estamos a apelar ao Governo português que tente arranjar uma solução para sairmos porque no dia em que houver Covid-19 em Moçambique a propagação vai ser mil vezes pior do que aí, já que há muita aglomeração de pessoas nos transportes, comércio, etc.".

Com casa alugada em Portugal, e com a certeza de que no regresso terá de ficar em quarentena, preocupa-o sobretudo a possibilidade de ter assistência médica para os filhos, já que o sistema de saúde em Moçambique, pelo que relata, "não funciona".

Bilhetes a 2200 euros

A esperança do grupo onde se inclui José é um voo agendado para sábado, para o qual, segundo ouviu dizer, cada bilhete está a custar 2200 euros. No caso do engenheiro de 48 anos, teria de desembolsar 11 mil euros para fazer regressar toda a família.

"São preços despropositados e nesta altura de calamidade não deveriam aproveitar-se das pessoas, deveriam permitir-nos viajar a preços sustentáveis. E a nossa esperança é que o aeroporto de Maputo não feche porque já nos disseram que a circulação terrestre pela África do Sul está vedada a cidadãos portugueses".

O grupo que se juntou no aeroporto foi recebido pelo cônsul português em Moçambique esta manhã que não conseguiu apresentar uma solução de regresso, uma vez que os voos foram cancelados.

O cônsul Frederico Silva "comprometeu-se a reportar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros a situação de cada português nestas circunstâncias e ir informando sobre o evoluir da situação", lê-se no grupo "Portugueses retidos em Maputo", criado no Facebook para partilhar informação sobre as negociações em curso.

"Foi a primeira vez que utilizei e senti a palavra pânico"

Evelyn Santos, investigadora na Universidade de Aveiro, estava até ontem em missão em Moçambique. Esteve 24 dias no país e agora só quer "fechar os olhos e já estar em Portugal".

Depois de ver o voo cancelado, regressou ao hotel onde tinha estado. Tem vivido nas últimas horas a agonia de saber a família em pânico em Portugal e de ela própria ter utilizado a mesma palavra "pela primeira vez".

"Estou sozinha. Não tenho casa, nem família cá. A TAAG não se responsabiliza, o seguro de viagem diz que não cobre os casos de coronavírus e esta vida de hóteis não me pertence".

Exige medidas especiais para situações extraordinárias. "Quando são casos peculiares, as soluções têm de ser pensadas assim, tem de haver uma estratégia para os portugueses que estão em África. Há famílias com crianças e idosos".

O apoio chega dos portugueses que conheceu no aeroporto. "Temo-nos apoiado, mas agora precisamos de algo de cima. Da ajuda do Governo português para sair daqui".

A esperança passa pela possibilidade de ao abrigo da declaração do estado de emergência o Governo possa intervir na atividade da TAP de forma a garantir lugares num voo previsto para sábado.