Um ano de covid-19

José Gil: "Portugal sai ferido da pandemia, os portugueses estão zangados"

José Gil: "Portugal sai ferido da pandemia, os portugueses estão zangados"

A pandemia "criou medos e reativou os medos antigos", acentuou desigualdades e tornou "necessária uma ação comum" que, na perspetiva do filósofo José Gil, não existe na sociedade portuguesa. Porque Portugal sai desta crise "como um animal ferido" e com "uma espécie de consciência de muitas desigualdades e injustiças que estavam escondidas e que agora se mostram de forma muito clara".

Os portugueses estão "emocionalmente estão zangados", observou o ensaísta durante o debate com o ministro da Educação, que se realizou esta segunda-feira, na redação do JN. A pandemia ativa "a hostilidade de um pelo outro" e, sobretudo, gerou "um descontentamento, uma frustração de cada corporação" pela forma como foi tratada durante o confinamento.

"Porque é que eu tenho de confinar, por que não tenho uma profissão essencial como as outras? Isso provoca uma espécie de efervescência, uma zanga e revolta por não ser reconhecido equitativamente pelo Estado, como entidades igualmente pertinentes, valorizados e reconhecidos pela sociedade inteira", argumentou.

Para José Gil, estamos perante "uma atomização individual numa sociedade que abre gretas entre classes e em que há uma espécie de injustiça geral do Estado".

É necessário, portanto, abrir o debate, envolvendo os portugueses, e colocá-lo num plano essencial: "o que vamos fazer do nosso futuro? O que é que o Governo e o Estado têm preparado para criar uma sociedade mais justa?"

José Gil não crê, no entanto, que existam hoje propostas mobilizadoras nesse sentido. O Plano de Recuperação e Resiliência, defendeu, não tem "um objetivo bem definido" para combater essas "desigualdades". E carece "um consenso generalizado" para ser executado. É também necessário "um empenhamento motivado da população portuguesa por inteiro" e, mais do que vontade, ânimo político. "Mas não vejo nenhuma força política que tenha ideias para isso", acrescentou, sem esconder a apreensão com o avanço da extrema-direita que "vai capitalizar esta zanga dos portugueses."

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