Inquérito

Jovens e famílias grandes gerem pior o isolamento

Jovens e famílias grandes gerem pior o isolamento

Inquiridos em estudo que envolve 11 mil pessoas referem a monotonia dos dias iguais, sensação de clausura, ansiedade e preocupação com a saúde.

Os jovens entre os 16 e os 24 anos e os agregados familiares numerosos são os que estão a lidar pior com o isolamento provocado pela pandemia atual. Este é o resultado de um inquérito do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e do ISCTE sobre os impactos da Covid-19. O estado de emergência no país poderá ser estendido até 1 de maio.

Os problemas económicos e as situações de desemprego que surgiram durante o isolamento estão a contribuir, e muito, para lidar mal com as restrições. Cerca de um terço dos inquiridos no estudo realizado no final de março diz que está a ter dificuldades. As famílias maiores, principalmente as mulheres entre os 35 e 44 anos com filhos menores, são as que estão a gerir pior o confinamento, devido à "dificuldade em conciliar, no espaço doméstico, o trabalho, a vida familiar e educação dos filhos". Muitas vezes, acresce o facto de cuidarem de pais dependentes.

Mas os mais jovens também estão a gerir mal o isolamento, segundo o estudo. Isto porque a falta de liberdade e convívio são uma "fonte de frustração e angústia". "É curioso porque, por um lado, os jovens são os que estão mais otimistas e a estimar que as restrições durem só até final de abril ou maio. Por outro lado, está a custar-lhes bastante o confinamento", explica Rita Gouveia, uma das investigadoras, que acrescenta que isto "está muito relacionado com os percursos escolares".

Conflitos com irmãos

De acordo com a investigadora, os jovens "têm receio das notas ou de não entrar na universidade. Mas também a falta de convívio com os colegas, amigos, namorados, e a coexistência no mesmo espaço com os pais e os irmãos estão a potenciar conflitos". A investigadora sublinha que os desafios naturais da adolescência e entrada na vida adulta são aumentados pelo contexto atual.

Em contraponto, os homens com mais de 65 anos, com rendimentos confortáveis, são quem está a lidar melhor com as restrições. Aliás, os portugueses reformados, no geral, estão a ter menos dificuldades com as restrições, embora sejam os mais velhos os que vivem com mais medo de serem contaminados.

De acordo com o investigador e coordenador do inquérito, Pedro Magalhães, "não sabemos durante quanto tempo as pessoas suportarão as dificuldades que as atuais restrições implicam". Uma coisa é certa: todos os inquiridos receiam desenvolver estados depressivos, stress e ansiedade. Os portugueses referem sobretudo a monotonia dos dias iguais, a sensação de clausura, mas também a ansiedade e a preocupação com a saúde, o stress ligado à necessidade de estudar ou trabalhar muitas horas em casa, ou os conflitos familiares como os grandes desafios do isolamento.

O inquérito foi lançado dez dias depois do fecho das escolas e uma semana depois da declaração do primeiro estado de emergência e será repetido no final de abril para avaliar a evolução do impacto social do isolamento na vida dos portugueses.

11500 inquiridos

O inquérito online foi realizado entre 25 e 29 de março, com a participação de 11 500 pessoas que vivem em Portugal. Terá nova ronda no fim do mês.

Viúvos sofrem mais

O grupo específico de homens mais velhos, viúvos, com poucos rendimentos e baixa escolaridade, isolados e sem apoio, está a viver de forma dramática o isolamento.

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