Covid-19

Levantamento "cauteloso" do confinamento é possível mas não é consensual

Levantamento "cauteloso" do confinamento é possível mas não é consensual

Especialistas defendem retorno "progressivo e monitorizado", com uso de máscaras. Há o risco de agravar pandemia e Associação de Médicos de Família discorda do alívio no início de maio.

Da abertura cautelosa ao adiamento - é assim que os especialistas ouvidos pelo JN avaliam o regresso à normalidade em maio. Há ainda muitas incógnitas, considera Fernando Maltez. O diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral (Lisboa) alerta para o risco de agravamento da pandemia, quando ainda surgem cerca de 600 novos casos/dia. A infecciologista Margarida Tavares, do Hospital de S. João (Porto) pede um retomar "progressivo e monitorizado", embora esteja certa de que as unidades de saúde estão mais preparadas para a assistência aos doentes com Covid-19 do que há mês e meio.

A infeciologista do hospital portuense (a unidade do país com maior número de doentes e que chegou a ter, no período mais crítico, 140 em enfermaria e quase 60 em cuidados intensivos) considera impossível manter o "lockdown", apreensiva com os efeitos nefastos na pobreza e no desemprego. Na saúde, cirurgias e tratamentos têm de ser retomados.

"Se cada abertura for monitorizada e as pessoas mantiverem os cuidados, poderá não haver um agravamento da situação pandémica. Com disciplina, é possível continuar nesta tendência decrescente", preconiza. Os serviços de saúde "estão mais capazes para lidar com um eventual acréscimo de casos", na sequência do fim do confinamento, ou "com uma onda mais tardia no outono/inverno. Tiveram tempo para colocar em prática, testar e corrigir os seus planos de contingência", atenta.

O perigo da segunda vaga

Tanto o Hospital de S. João como o de Curry Cabral notam um "alívio da pressão" dos internamentos. Ambos os serviços nunca estiveram em situação-limite.

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"Neste momento, estamos confortáveis", especifica Fernando Maltez, reconhecendo que é necessária mais "evidência epidemiológica de que o pico já foi ultrapassado. Os próximos 15 dias poderão ser elucidativos". O especialista tem dúvidas: "O Norte pode estar em fase descendente e, no sul, a epidemia pode não estar numa fase tão avançada. Nada me diz que não seja assim". O diretor do serviço de Infecciologia adverte para estudos, feitos no passado, que demonstram que, "com períodos de contenção inferiores a dois meses, há um perigo maior de uma segunda vaga", adverte.

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, tem uma certeza: o vírus não vai desaparecer da comunidade e, por isso, há que reativar a atividade económica e assistencial na Saúde com "enorme contenção", avaliando cada passo. Os dias que se seguem não trarão a normalidade que, outrora, conhecemos.

Procura ainda cresce

"Há que ter respeito por esta infeção. Os cidadãos não podem pensar que está tudo controlado". Em espaços públicos, devem aliar as medidas de higiene e o distanciamento social às máscaras comunitárias. "Ainda assim, é preciso que a curva epidemiológica comece a descer" e o retorno seja precedido de regras apertadas.

Por exemplo, sugere o bastonário, os jogos de futebol devem ser à porta fechada. As manifestações, congressos, concertos e o uso de ginásios aumentam o risco de contágio. Os transportes públicos não podem circular cheios. "Uma recaída tem sempre efeitos mais fortes", alerta.

É o receio de Rui Nogueira, que não vê condições para o alívio em maio. "Não temos sinais de que é possível abrandar a vigilância e o confinamento. Cada dia há mais casos nos centros de saúde". O presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar indica que o aumento da procura mantém-se e não é equitativo no país. "As unidades do Grande Porto estão quatro vezes mais sobrecarregadas do que as do Sul e com o dobro das do centro".

Menos de 50% estão curados após um mês

A cura da Covid-19 é um processo muito lento. Ao longo destas semanas de tratamento no Hospital de S. João (Porto), a infecciologista Margarida Tavares constatou que "menos de 50%" dos doentes recuperados e sem sintomas ao fim de 30 dias apresentava dois testes negativos. O vírus mantinha-se presente, mas, reconhece a médica, ainda não é possível afirmar que esses pacientes ainda transmitem o vírus. Por precaução, mantêm-se isolados.

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