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Mais pedidos de ajuda devido a álcool, droga e jogo

Mais pedidos de ajuda devido a álcool, droga e jogo

Especialistas notam aumento dos consumos de forma isolada, em casa, e isso traz riscos. SICAD recebe dezenas de chamadas/dia e reforçou linha de apoio.

O isolamento social alterou os padrões de consumo de álcool, drogas e jogo e todos os especialistas constatam que a alteração de comportamentos, com aumento do consumo, pode trazer riscos para a saúde de milhares de portugueses.

Nos últimos dias, o Serviço de Intervenção nos Comportamento Aditivos e nas Dependências (SICAD) viu-se obrigado a reforçar o número de enfermeiros que atendem a linha vida 1414 porque as chamadas "têm vindo a aumentar progressivamente", refere João Goulão, diretor-geral. São agora quatro pessoas para "dezenas de chamadas por dia" numa linha que "tinha perdido importância em detrimento da Saúde 24".

Com exceção do aumento da procura da linha de apoio, João Goulão não dispõe de dados que permitam quantificar os consumos atuais, mas o aumento "parece de facto adequado ao tempo que vivemos". Isto comporta riscos, sobretudo no caso do álcool, cujo síndrome da privação, decorrente do isolamento e do facto de não ter onde comprar, "conduz a situações de risco de vida".

A Kosmicare, organização sem fins lucrativos favorável ao uso de drogas, lançou recentemente um questionário virtual para quantificar os padrões de uso de narcóticos e bebidas alcoólicas em altura de isolamento. "Notamos que as pessoas estão a beber mais álcool e, de repente, os consumos que eram sociais passam a ser isolados, o que acarreta alguns riscos", constata Catarina Vale Pires, da Kosmicare.

Segundo Luís Patrício, psiquiatra especialista em adições e autor do projeto pedagógico Mala da Prevenção, um consumidor em situação de confinamento que continua a procurar substâncias pode desenvolver "reações emocionais desagradáveis, como tensão, angústia e insegurança" que podem originar "solidão, depressão, porventura a vivência de abandono e até medo. Tudo piora". No caso das drogas, é mais visível pelo facto de as redes de distribuição serem ilegais.

Droga adulterada

Para além disso, o mercado do tráfico sofreu uma pequena revolução, constatam os especialistas. A restrição do tráfego aéreo e o fecho das fronteiras diminuiu consideravelmente a quantidade de produto estupefaciente que entra no país, o que leva a que algumas drogas tenham quadruplicado de preço e outras sejam adulteradas com substâncias desconhecidas.

"Na cocaína, o consumo está muito mais aumentado do que antigamente, com queixas da quebra de qualidade", adianta o psiquiatra, a quem os doentes também reportaram que os derivados de canábis, como liamba e haxixe, "estão ao preço do ouro".

À medida que o confinamento vai sendo levantado, poder-se-ia esperar que os riscos diminuíssem. Mas "o desconfinamento pode vir a trazer mais e mais riscos", alerta Luís Patrício, que entende que "a descompressão rápida pode originar agravamento de comportamentos de risco para a saúde, como o consumo de álcool e outras substâncias, mas também de sexo, jogo e compras".

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