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Manuel Falcão: Tempos de antena são mau negócio e não se justificam

Manuel Falcão: Tempos de antena são mau negócio e não se justificam

O especialista em comunicação Manuel Falcão considera que os tempos de antena televisivos já não se justificam e são um mau negócio para os canais que perdem audiência e publicidade, que a contrapartida financeira do Estado dificilmente compensa.

Após o 25 de abril, quando os tempos de antena foram regulados pela primeira lei eleitoral, os tempos de antena eram "interessantes para as pessoas chegarem ao que eram as propostas dos partidos", disse à agência Lusa, acrescentando que o panorama dos media mudou, mas o conceito permaneceu.

"Na altura havia um único canal de televisão, que era a RTP 1. Sabe-se o que foi a evolução dos media em Portugal: mais dois canais (SIC e TVI), além da RTP 2, e a proliferação dos canais de cabo, uns de entretenimento, de séries e cinema e de notícias", adiantou.

A somar a estas mudanças, enumerou, chegaram os meios de informação digitais, que nem sequer estavam previstos e regulados na altura em que a lei foi feita. "Só esta alteração da configuração justificaria que se olhasse para isso", defendeu.

Por outro lado, quando os tempos de antena foram regulados, o canal único tinha toda a audiência, que depois foi dividida com a RTP2 e mais tarde com a SIC e a TVI.

Atualmente, frisou, "os quatro canais, em média, têm metade da audiência total das pessoas que veem televisão durante a semana. Todo o panorama da televisão e de media está alterado e a legislação ficou muito atrás no tempo e das alterações".

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E nem mesmo o pressuposto - dar condições iguais para todos os concorrentes - se justifica hoje em dia, na opinião de Manuel Falcão, que exemplifica com as audiências.

A audiência obtida durante os tempos de antena nos primeiros três dias em que foram transmitidos "está abaixo da média diária dos canais".

Dados da Comissão de Análise de Estudos de Meios (CAEM), solicitados pela Lusa, indicam que os tempos de antena no domingo foram vistos por 1.822.780 pessoas, por 2.059.750 telespetadores na segunda-feira e por 1.862.890 na terça-feira.

Segundo Manuel Falcão, estes dados indicam que "há muita gente que pára nos canais mais vistos (SIC e TVI) e saem dos tempos de antena, não querem ver, vão ver outro programa qualquer".

"Isto não é bom para a saúde dos canais, nem para a saúde da democracia e da possibilidade de comunicar de forma efetiva com o máximo de audiência possível", afirmou.

E explicou que, na segunda e terça-feira, o share médio da SIC e da TVI "foi substancialmente abaixo do que é o share médio dessas estações. Estamos a falar de diferenças de três e quatro pontos, num e noutro caso, e naquela hora ainda mais acentuada".

A hora em que os tempos de antena são transmitidos, em média próximos das 19 horas, "é a hora em que os canais começam a receber audiência. É a hora em que as televisões começam a ser ligadas, as pessoas chegam a casa, as crianças chegam da escola".

E prosseguiu: "Basta ver os shares obtidos da SIC e da TVI e comparar os shares médios àquela hora para perceber que muita gente sai dali".

Sobre os valores da compensação que o Estado atribui às rádios e às televisões para os tempos de antena, que nestas legislativas totaliza 2.389.600 euros, Manuel Falcão disse duvidar que compense efetivamente, pois esta propaganda eleitoral é feita num "horário em que o preço da publicidade aumenta, porque há mais gente a ver".

Manuel Falcão considera que os tempos de antena "não levam ninguém a mudar de opinião ou a conquistar eleitores" e também não têm travado "essa tendência infortunada e infeliz do aumento da abstenção nas eleições legislativas, pelo menos, de forma acentuada desde o início deste século".

"Os partidos têm meios de comunicar com as pessoas - meios digitais e redes sociais -, têm forma de chegar a sua mensagem às pessoas, sem esta necessidade de impor tempos de antena, na maior parte das vezes muito fracos do ponto de vista do conteúdo", defende.

Segundo a CAEM, os tempos de antena no domingo, quando começaram a ser transmitidos, foram vistos por 1.822.780 pessoas: 312.470 através da RTP1, 23.520 sintonizados na RTP2, 854.670 na SIC e 632.120 na TVI.

Nesse dia, o canal que obteve um share maior durante os tempos de antena foi a SIC (16,48%).

Na segunda-feira, assistiram aos tempos de antena 2.059.750 telespetadores, distribuídos pela RTP1 (872.170), RTP2 (24.780), SIC (597.400) e TVI (565.400).

Nesse dia, foi o tempo de antena da RTP1 que obteve o maior share de audiência, com 20,26% de todas as pessoas que naquele momento estavam a ver televisão a optarem por este programa.

Este share foi, até agora, o mais elevado de todos os canais televisivos que transmitem tempos de antena para as legislativas de 30 de janeiro.

Na terça-feira assistiram a estes programas 1.862.890 telespetadores, através da RTP1 (729.190), RTP2 (37.240), SIC (519.150) e TVI (577.310).

No mesmo dia, foi o tempo de antena da RTP1 que obteve o maior share de audiência: 17,93%.

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