Saúde

Marco viveu com a orelha esquerda no braço durante dois meses

Marco viveu com a orelha esquerda no braço durante dois meses

Cirurgia pioneira a nível mundial, realizada no Hospital de S. João, Porto, permitiu devolver orelha esfacelada num acidente de viação a jovem de Arouca.

O 11 de maio de 2014 começou bem e acabou mal. Nesse domingo, Marco André Magalhães, então com 25 anos, saiu bem cedo de casa, em Arouca, em direção à serra da Freita. Mais um dia de convívio com amigos, mergulhos no rio, almoço e lanche ao ar livre. Colocou o fogareiro e alguns alimentos na mala da carrinha de três lugares e fez-se à estrada. O dia prometia. Muita conversa e diversão com o grupo de sete que, de vez em quando, se juntava para subir a serra.

No regresso, o carro que conduzia despistou-se, rodou, bateu contra uma árvore, que travou a queda pelo abismo da ribanceira a dois passos dos pneus. "Não tenho bem ideia do que aconteceu, fiquei em choque", recorda. As imagens do acidente perderam-se na sua memória, ficou o barulho do acidente na cabeça. Apenas os sons.

Marco André ficou com o braço direito partido e com a orelha esquerda esfacelada. Retalhada, sem conserto possível. Seguiram-se oito meses de fisioterapia e duas operações complexas que lhe devolveram a orelha. Dois anos e duas cirurgias depois do acidente de carro, Marco, agora com 27 anos, recuperou a paralisia do pulso e dos dedos da mão direita e tem uma nova orelha reconstruída a partir de tecidos do seu antebraço. A cirurgia de reconstrução total de uma orelha é uma página dourada na história da medicina. É inédita a nível mundial e esteve nas mãos de uma equipa de cirurgiões do Serviço de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Maxilo-Facial do Centro Hospitalar de São João, do Porto.

Durante dois meses, Marco viveu com uma orelha no seu antebraço, esculpida à sua medida. Em março deste ano, uma prótese biocompatível, de polietileno poroso, foi colocada no antebraço durante uma cirurgia de três horas. Aproveitou-se o modelo de uma prótese de silicone que estava desenhada, à imagem e semelhança do doente, e esculpiu-se uma orelha nessa zona do corpo. A 30 de maio, mais uma cirurgia. Oito horas na mesa de operações para transplantar a orelha do antebraço para o sítio onde devia estar. Em setembro, Marco regressará ao hospital para mais uma operação para alguns retoques, revisão de contorno e melhorar os resultados finais.

"Técnica de camuflagem"

Marco nunca deixou de ouvir do lado esquerdo. O acidente não lhe roubou a função auditiva. Mas a autoestima ressentiu-se. E de que maneira. Deixou crescer o cabelo, passou a usar gorro de manhã à noite, dentro e fora de casa. ""Era uma questão de autoestima, mas agora estou bem. É mais um bocadinho, é uma nova etapa", afirma.

Depois do acidente, era necessário escutar com a atenção as sugestões médicas. A prótese externa foi arrumada a um canto. "Uma ideia colapsou e surgiu outra. Foi juntar o útil ao agradável". Era necessário adaptar-se à ausência da orelha. O gorro e o cabelo mais comprido são, admite, "uma técnica da camuflagem". A recuperar da última cirurgia, depois de apenas uma semana de internamento, mantém o gorro na cabeça. A orelha ainda está a habituar-se à "nova casa" sem qualquer sinal de rejeição.

Um ano depois do acidente, Marco André voltou ao trabalho, gerir um dos supermercados que os pais têm, em Arouca. Nunca fez outra coisa. Desistiu do curso de Engenharia Ambiental ainda as aulas estavam no primeiro trimestre. "Gostava pouco de números. Agora gosto do que faço."

E voltou a conduzir. Viver numa pequena vila, onde todos se conhecem, ajuda. "Toda a gente sabe o que aconteceu. É um meio pequeno, o que, neste caso, foi bom." As perguntas mais dolorosas evitam-se. No entanto, explicar por que tinha uma orelha no braço não foi fácil. "Aos mais velhos, nem valia a pena explicar", conta.

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