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Maria Campino, nome de guerra. A primeira mulher a comandar um blindado

Maria Campino, nome de guerra. A primeira mulher a comandar um blindado

Maria Campino, militar com 33 anos, natural de Monção, cumpriu sonho na República Centro-Africana.

Descreve-se como uma mulher "dura e fria", moldada "a ferro e fogo" desde pequena pela dificuldade e pelo trabalho braçal no campo. Mas confessa que lhe tocaram o coração as lágrimas de adeus das mulheres e crianças africanas às tropas portuguesas. A primeiro-sargento Maria Campino, natural de Lara, Monção, foi uma das nove mulheres (uma desistiu), num total de 180 militares, que integraram a 5.a Força Nacional Destacada na República Centro-Africana durante seis meses.

A militar de 33 anos pertence ao Regimento de Cavalaria 6 de Braga, e foi destacada como chefe de uma das viaturas blindadas de rodas PANDUR II 8X8 Remote Weapon Station (RWS), da brigada de intervenção. "Foi a primeira vez que uma militar do sexo feminino comandou uma viatura blindada de rodas. Já houve outras mulheres, porque desde muito cedo as militares integraram missões, mas em funções mais resguardadas, desde cozinha, a sanitária ou logística. A minha função teve um grau de risco igual ao dos homens. Tive muito orgulho em desempenhá-la", diz.

Acidente que a abalou

A 6630 quilómetros de casa, ao lado da sargento de Monção, seguia na mesma viatura, na função de "apontadora", outra mulher do Norte: a cabo Catarina Silva, de Guimarães. Palmilharam o território até à exaustão. "Chegámos a andar 16 horas seguidas. O cansaço era muito. Quando era preciso, rendia o condutor", recorda.

Assinala como o pior momento o acidente de 13 de junho com o soldado Camará, que ficou sem as duas pernas num acidente quando a viatura blindada em que seguia se despistou e capotou. "Abalou-nos a nível psicológico", confessa.

"Vim uma pessoa diferente. Valorizo muito mais até um banho de água quente, dormir numa cama, comer à mesa, ver televisão. São coisas que aquela população não tem. Vive no extremo da pobreza e ameaçada por grupos armados. As crianças comem o que cai das árvores e tomam banho no rio. Não têm futuro".

A despedida deixou-lhe um sabor amargo. "Marcou-me quando saímos de Bocaranga. A população sentia-se segura com a nossa presença e manifestou isso. Crianças e mulheres choraram com a nossa saída e tivemos aquele sentimento que estávamos a fazer algo importante por aquelas pessoas", explica.

Abraços na missa

Quando regressou à terra natal, em Monção, Maria Célia Campino foi recebida com abraços da população na missa de domingo. "Foi muito bom receber todo aquele carinho. Houve muita gente a abraçar-me. Muitas pessoas da terra acompanhavam-me pelas redes sociais, onde eu publicava mensagens de alento e carinho", conta.

Infância difícil

Em Lara, esperava-a a saudosa mãe de 72 anos, e o trabalho de sempre na terra. "Mal cheguei fui logo vindimar", ri a sargento.

Mulher do campo, Maria Campino conta que cedo se tornou rija a conduzir o trator e a lidar com a terra e com os animais. "Acho que isso me preparou. Sabia que a minha vida não ia ser muito fácil. A minha mãe, divorciada, com três filhos, trabalhava a dias e não me conseguia pagar os estudos. Tive de trabalhar para acabar o 12.o ano e tirar a carta", lembra, acrescentando: "Na altura até tinha algumas capacidades para seguir enfermagem, mas não havia dinheiro". Recorda que o sonho da vida militar começou aos 20 anos: "Um dos meus irmãos fez tropa e no juramento de bandeira estivemos na parada e ficou ali qualquer coisa. Pensei: quero isto para mim".

Ainda trabalhou numa fábrica e fez um curso de higiene e segurança no trabalho, mas passou a sonhar com missões. "Quando surgiu esta oportunidade, dei o passo em frente porque me senti preparada. Foi o concretizar de um sonho. Qualquer militar que goste do que faz e se valorize sonha fazer uma missão", diz.

Em março de 2020, fará formação para subir a sargento-ajudante. O topo de carreira é sargento-mor, mas a por agora primeiro-sargento Maria Campino não aspira a tanto. O seu futuro passa por outra missão. "Está na hora de formar família. Anseio ser mãe. Já estou a pensar em acalmar um pouco e começar a viver uma vida mais de mulherzinha", revela.

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