Nacional

"Há-de chegar um dia em que não haverá Portugal"

"Há-de chegar um dia em que não haverá Portugal"

"Vai haver um dia em que não vai haver portugueses", alerta Paulo Rangel, chamando a atenção para a mudança de paradigma da democracia, agora "trans-territorial".

Depois do debate sobre o futuro de Portugal no contexto europeu e atlântico, a Grande Conferência JN prosseguiu, esta terça-feira, na Casa da Música, com o enfoque nos valores europeus em Portugal e com Paulo Rangel a estrear o segundo painel.

O eurodeputado aproveitou a sua intervenção para reforçar a ideia de que estamos "a viver em democracias pós-territoriais". "O nosso mundo mudou. Isto não é um problema de políticas, mas um problema de mudança de paradigma. Os governos, os parlamentos já não têm capacidade de resposta para os problemas, pois os problemas têm uma dimensão trans-territorial. O Estado já não tem o monopólio do poder e da legitimidade", admitiu.

"Os votos valem hoje menos do que valiam no passado. As fórmulas políticas também morrem e há-de chegar um dia em que não vai haver Portugal. Isto pode parecer dramático, mas é real. Vai haver um dia em que não vai haver portugueses", antecipa o eurodeputado.

Paulo Rangel falou, igualmente, sobre Espanha enquanto potencial grupo de estados, da hipotética saída do Reino Unido da União Europeia e com os avanços do Estado Islâmico, que "está às portas da Europa". "Devíamos estar atentos ao Estado Islâmico, pois o grande objetivo dos terroristas é atingir o Vaticano e nós temos uma praça simbólica chamada Fátima. Este é outro ponto que temos de enfrentar".

Também o deputado José Ribeiro e Castro falou dos "desafios fortíssimos" que Portugal e a Europa enfrentam, principalmente dos que ameaçam os "pilares fundamentais da União Europeia". "Vivemos num momento de grande incerteza. O ano começou com o atentado ao Charlie Hebdo, que chocou o Mundo. Depois vimo-nos a braços com a crise na Ucrânia, que põe a Europa a sangrar, a que se juntaram as eleições gregas, que também põem em questão o pilar da prosperidade europeia", recordou.

"É importante que as lideranças europeias possam mobilizar as suas sociedades para o sonho europeu. O sonho europeu é extraordinário, mas está a ser traído. E nós precisamos dele", adiantou.

Igual ideia tem o ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Francisco Seixas da Costa, que acredita que Portugal tem de "tentar evitar um novo ciclo de periferização" e precisa "de uma política para a Europa". "No passado, Portugal mostrou-se criativo e ajudou a criar uma consciência europeia", afirmou, lembrando que a "colaboração portuguesa nas políticas europeias deixou uma imagem muito equilibrada de Portugal".

"Na questão de Timor-Leste, por exemplo, Portugal mostrou-se capaz de estar sozinho na mesa europeia na defesa de valores. Fomos capazes de levantar a voz sempre que algo era decidido que pudesse tirar atenção à autodeterminação do povo timorense. Isso garantiu-nos um grande respeito em matéria de direitos humanos", frisou. "Temos de estar presentes nos grandes debates europeus. Temos, principalmente, de estar presentes no debate da Europa de valores", disse.

O diplomata acrescentou, ainda, que Portugal deveria ter uma posição vincada "em questões da liberdade de circulação de trabalhadores". "Não devemos ficar reféns da posição britânica, mas temos de garantir que a posição portuguesa é uma posição de consenso nacional", defendeu.