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Médica agredida a soco por doente em Almada

Médica agredida a soco por doente em Almada

Uma médica de família do Centro de Saúde de Santo António e Laranjeiro, em Almada, foi esmurrada na cabeça por uma doente, durante o processo de triagem esta quarta-feira, ficando com ferimentos na orelha e os óculos partidos. A PSP foi chamada a intervir. "Sinto-me um lixo", admite a profissional de saúde agredida, que teve de meter baixa.

A agressão a Eugénia Cheptene, clínica no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Almada e Seixal, ocorreu pelas 9.45 horas desta quarta-feira, durante a habitual triagem aos doentes que têm consulta agendada e aos que querem ser atendidos sem marcação. Este sistema de entradas foi implementado devido à covid-19.

A utente começou por exigir uma consulta nesta quarta-feira, já depois de ter feito alegadamente uma mesma tentativa na terça-feira, em que gritou com os administrativos do centro de saúde e com uma enfermeira. A mulher terá pedido ainda uma declaração de falta justificada para a filha.

Ao JN, Eugénia Cheptene adiantou que levou "o cartão de utente da filha da agressora ao Dr. Feliciano, médico de família atribuído, e ao secretariado clínico, que marcou uma consulta para amanhã às 8.30 horas".

"Faltavam 15 minutos para acabar o período de triagem. Quando regressei e comuniquei a que horas era a consulta amanhã, começou logo a gritar. Não quis aceitar o papel da marcação. Depois passou para as agressões verbais: és uma arrogante, és uma merda", descreveu a médica de família, de 53 anos, que voltou ao colega que tem atribuída tal família.

"Fui ter com o dr. Feliciano e disse-lhe: a senhora não aceita a hora da consulta. Mas ela conseguiu entrar no edifício e, quando saí do gabinete, agarrou-me, encostou-me à parede e deu-me vários socos. Como ela é muito mais alta que eu, os seguranças, os enfermeiros e outras pessoas tiveram dificuldade em afastarem-na de mim", contou.

Eugénia Cheptene foi esmurrada na cabeça, perdeu os óculos e ficou com dores na orelha. "Sinto-me muito fragilizada. Sinto-me um lixo. Vou ter de ter apoio de um psiquiatra, porque não estou bem", admitiu a clínica, que antes de estar colocada em Almada passou "seis anos no Hospital de Castelo Branco, onde nunca" teve episódios destes.

O Comando Distrital de Setúbal da PSP confirmou, ao JN, o episódio de violência, avançando que, apesar de ter sido identificada pelos agentes da esquadra da PSP do Laranjeiro, a agressora não foi detida.

"Quando chegámos, as agressões já tinham ocorrido e os vigilantes do centro de saúde conseguiram serenar os ânimos. Identificámos a suspeita de agressão, contra a qual a vítima tem agora algum tempo para apresentar queixa", disse Maria do Céu Viola, comissária da PSP responsável pela comunicação.

O JN contactou o ACES de Almada e Seixal mas, devido à ausência do diretor executivo e da presidente do conselho clínico, não foi possível obter qualquer reação.

Tempo de covid-19 "pode ser barril de pólvora"

Para a Federação Nacional dos Médicos (FNAM), "independentemente do contexto em que ocorreu tal agressão, apesar das frustações dos doentes com a nova atuação nos centros de saúde devido à covid-19, nada justifica estes atos".

"Poderão vir a surgir situações muito complicadas como esta nos próximos tempos. Se antes da covid-19 já havia dificuldade dos utentes em conseguirem consulta com os seus médico de família - aqueles que os tinham -, nas atuais circunstâncias, com as consultas a ter de serem mais espaçadas no tempo e a estarem em vigor nos centros de saúde processos de triagem, é necessário que a Tutela esteja atenta e atue de forma preventiva, porque o grau de insatisfação e irritabilidade das pessoas vai aumentar e tudo isto pode ser um barril de pólvora", alertou Noel Carrilho, líder da FNAM.

De acordo com o dirigente sindical, "a maioria dos doentes compreendem as dificuldades por que passam os médicos e, ainda bem que, dentro de milhares de consultas que são feitas diariamente, o que aconteceu em Almada [esta quarta-feira] continua a ser a exceção quanto a este nível de violência". "O habitual, que nos é reportado pelos profissionais, consiste em episódios de injúrias e agressões verbais", acrescentou.

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