Alarme

Médicos dentistas em risco de colapso

Médicos dentistas em risco de colapso

Há mais de um mês com as portas encerradas, as clínicas dentárias vivem dias de aflição e o setor ameaça entrar em colapso.

Essa é a convicção da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), que alerta para a necessidade de rever medidas, pois "caso contrário está comprometida a capacidade de resposta quando a atividade for retomada". "Os dentistas são na sua maioria profissionais liberais ou sócios-gerentes de pequenas sociedades, unipessoais e microempresas, pelo que urge introduzir medidas para os compensar, tal como acontece com os trabalhadores por conta de outrem", explica, ao JN, Orlando Monteiro da Silva, bastonário da OMD.

O limite de 60 mil euros de faturação para que sócios-gerentes possam aceder ao recente apoio criado pelo Estado deixa milhares de fora. "É preciso um plano de proteção financeira. Estamos a desenvolver um trabalho junto do Governo, de forma a solicitar medidas específicas. Foi aprovada pela Ordem a isenção de todos os associados do pagamento das quotas do segundo trimestre", revelou Monteiro da Silva.

Por estes dias, os médicos dentistas garantem o serviço em situações inadiáveis, de caráter urgente, mas enfrentam o problema da falta de equipamentos e a especulação do mercado.

"Temos apelado ao Ministério da Saúde para que disponibilize equipamentos de proteção individuais (EPI), nomeadamente máscaras FFP2", diz o bastonário, que, entretanto, recebeu a garantia que irão ser entregues 55 mil máscaras, a serem partilhadas pelos dentistas inscritos na OMD.

Profissão de risco

Os dentistas são um dos grupos com maior risco de infeção. "Estamos em contacto próximo com os pacientes e os instrumentos produzem uma grande quantidade de gotículas que ficam no ar durante horas", explica Mário Brito, ortodentista na clínica "Medical Clinic" by Taboada.

Médico dentista e professor universitário, Gonçalo Castilho teme as consequências que a pandemia pode deixar num setor já de si carenciado. "Ninguém tem um mealheiro para estar parado. A maioria das clínicas estão fechadas. As outras têm apenas profissionais a garantir as urgências. No grupo onde trabalho, por exemplo, havia uma média de duas mil consultas por dia. Foram todas desmarcadas. Essas pessoas têm tratamentos pendentes", faz notar Gonçalo, que exerce funções no Hospital Privado de Alfena, do Grupo Trofa Saúde.

A escassez de equipamento continua a ser um problema e há profissionais em dificuldades. "O setor já estava mal e agora ainda vai ficar pior. Muitos colegas são recibos verdes, a ganhar uma comissão por ato, e conheço alguns que ganharam 50 euros por mês".

Gonçalo pede uma revisão para o "enquadramento dos apoios aos sócios-gerentes" e deixa um alerta: "A medicina dentária está praticamente entregue ao setor privado. Não havendo essa opção, as pessoas vão sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde e isso pode ser dramático. Isto vai demorar a arrancar e é preciso que olhem para nós".

Especializada em medicina dentária pediátrica, Joana Teixeira da Costa está sem trabalhar há mais de um mês e tenta ajudar os pacientes através das redes sociais e videochamadas. "É uma situação ingrata. Nesta área, não há teletrabalho e a única coisa que podemos fazer é falar com as pessoas. Tento, por exemplo, ensinar os pais a escovar melhor os dentes dos filhos", explica, ao JN, mostrando-se preocupada com o presente e o futuro: "Fomos dos primeiros setores a fechar e, apesar de estarmos sem faturar, temos de cumprir com os pagamentos da Segurança Social. A maioria dos dentistas são sócios-gerentes e não podem recorrer ao lay-off".

A médica dentista alerta para o cenário que pode acontecer nos próximos tempos. "A saúde oral pode cair para segundo plano. O preço dos equipamentos pode implicar uma inflação dos preços das consultas e com a quebra do poder económico prevejo que possam existir dificuldades. É algo que pode vir a provocar muitos problemas no Serviço Nacional de Saúde", aponta, expressando o desejo de voltar rapidamente ao ativo nas três clínicas em que presta serviços no Porto e noutra em Guimarães.

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