Sarampo

Médicos recusam impor vacinas mas admitem restrições

Médicos recusam impor vacinas mas admitem restrições

Limitar acesso de crianças não vacinadas a locais públicos seria forma de defender a saúde pública.

O acesso de crianças não vacinadas a locais como creches ou clubes desportivos pode ser restringido como forma de evitar a propagação de doenças evitáveis pelo Plano Nacional de Vacinação, admitiram médicos ouvidos pelo JN. A medida não é consensual entre os clínicos, mas foi avançada como forma de proteger a comunidade das consequências de decisões individuais, tomadas pelos pais que não vacinam os filhos.

A discussão enquadra-se na epidemia de sarampo, que soma 21 casos confirmados e 18 em investigação. A Direção-Geral da Saúde (DGS) não antecipa uma propagação em larga escala porque quase toda a população está vacinada. Mas sem esta imunização de grupo, o risco para epidemias de larga proporção cresce.

Manuel Gomes, da Comissão Técnica de Vacinação da DGS e professor de Epidemiologia em Lisboa, é taxativo. Em creches, diz, "sugiro fortemente que seja vedada a entrada a crianças que não tenham o boletim de vacinação em dia". E na escola, até ao 6.º ano, sugere a aplicação de "coimas e perda de benefícios atribuídos com dinheiros públicos".

Além disso, defende a obrigatoriedade de vacinas como o sarampo, parotidite, rubéola, difteria e tosse convulsa. É a posição mais assertiva das ouvidas pelo JN, mas também Ricardo Mexia, especialista em Saúde Pública, admite limitar o acesso de crianças não vacinadas a espaços como clubes desportivos. "Quem quer participar numa coletividade tem de cumprir as regras da coletividade". Mas uma época de epidemia como esta, com ânimos exaltados, é uma má altura para discutir o tema, disse.

Pais devem confrontar pais

Precisamente o oposto propõe Ana Jorge, pediatra e ex-ministra da Saúde, para quem a questão deve ser posta enquanto o tema está na ordem do dia. A vacinação é "uma questão de cidadania", já que pode pôr em risco a comunidade, e os pais que recusam vacinar crianças devem ser chamados à escola e confrontados os restantes pais. "A pressão social e a literacia para a saúde podem ser eficazes", acredita. Recusa, contudo, a obrigação legal de vacinar.

Maria do Céu Machado, indicada pelo Governo para presidir ao Infarmed, também nega a imposição legal da administração de um fármaco e apela ao esclarecimento de todos os pais que receiam vacinar os filhos. "Neste momento, não há razão para temer uma vacina", assegura.

Luís Varandas, da comissão de vacinas da Sociedade Portuguesa de Pediatria, também põe a tónica na importância de instruir (e não punir) os pais e de não vedar o acesso das crianças a locais onde estejam em contacto com outras. "É pela educação que temos de convencer as pessoas".

Todos referem estudos que demonstram que o risco da vacina é muito menor do que o da doença que previne, mas Francisco Patrício, médico e presidente da Associação Médica de Homeopatia, reputa a afirmação: "Não reconheço validade aos estudos, a DGS deveria analisar as consequências de cada vacina". Patrício não toma, por isso, uma posição a favor ou contra a imunização. Optou por não vacinar a filha porque, enquanto médico e homeopata, entende ter capacidade para acompanhar o seu estado de saúde.