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Ministério corta no tamanho das caixas de emails dos médicos

Ministério corta no tamanho das caixas de emails dos médicos

O tamanho das caixas de emails dos médicos de famílias foi reduzido pelo Ministério da Saúde a 4% da sua capacidade. Segundo as associações do setor, os profissionais ficaram sem 48 gigas nos emails que tinham dimensão de 50 gigas. Mas os SPMS, que gerem os serviços públicos do setor, asseguram que os tais 96% de espaço transitaram para uma "núvem" e que têm sido dadas formações aos técnicos das Administrações de Saúde para ajudarem os profissionais do SNS em tais mudanças.

Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) diminuíram a dimensão das caixas do correio profissional dos médicos de família, numa altura em que os clínicos mais contactam por esta forma com os utentes devido à pandemia e recebem por ali exames que pedem.

Apesar de serem transversais a nível nacional, os cortes fizeram-se sentir de forma mais acentuada, esta quinta-feira, na Administração Regional de Saúde o Norte (ARSN) e na de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).

O JN apurou que além dos médicos, ao longo desta quinta-feira, há registos de enfermeiros de família e dos secretariados clínicos que também estão a reportar terem ficado sem espaço nos seus emails naquelas duas regiões de saúde.

De acordo com Diogo Urjais, presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (AN-USF), a diminuição começou a verificar-se durante quarta-feira, tendo esta quinta-feira sido generalizada.

"Numa altura em que existe um aumento do atendimento não presencial, que pode ultrapassar os 50% em algumas USF, não é admissível este cenário. Até porque, devido ao nível de contingência em que o país vive, o email - que já era muito utilizado - ganhou outra força e cimentou-se na relação com os utentes, que por sua vez também se habituaram a usar o email no contacto com o seu médico de família", explicou, ao JN.

Ao JN, os SPMS indicaram que as mudanças se inserem num "novo contrato com a Microsoft", que estabelece "um aumento da capacidade das caixas de correio eletrónico dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), bem como o alargamento dos serviços prestados".

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"Com o novo contrato, as caixas de correio eletrónico com um armazenamento com capacidade de 2Gb e de 50 Gb, respetivamente, passaram a ter a capacidade de armazenamento online de 52 Gb (2Gb na caixa de entrada e os restantes 50Gb na caixa de arquivo online)", explicou o gabinete dos SPMS, assegurando que "para evitar perturbações neste processo de migração, desde julho e em agosto que têm decorrido sessões online para formação dos técnicos".

Roque da Cunha, líder do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), alertou, ao JN, que "tendo em conta que não houve uma prévia informação, muitos emails terão perdido informação ou nem sequer terão recebido correio nas últimas horas".

Perante tais respostas dos SPMS, Diogo Urjais também salienta que "tal formação ou sensibilização não aconteceu".

"Se houve, não soubemos. Soubemos que houve, até agora, algumas indicações em alguns ACES [Agrupamento de Centros de Saúde] para a criação de um arquivo virtual até dois anos. Mas essa informação chegou 24 horas depois de os profissionais começarem a receber alertas de que tinham as caixas de correio cheias e de que não podem enviar ou receber mais emails", explicou, sublinhando que "se os SPMS deram formações às ARS, elas não se refletiram pelo menos em algumas regiões".

"Não houve qualquer explicação ou informação da ARS, o que nos surpreende imenso. Mas não vem aí uma bazuca de dinheiro europeu para investir na Saúde e na transição digital? Fazem uma alteração destas quando há 25 mil pessoas infetadas com covid-19 com quem os médicos têm de manter o contacto diário?", apontou também Roque da Cunha.

"Em causa não está, espero, uma questão financeira, mas, antes, incompetência", disse este dirigente sindical, que, no caso pessoal, só esta quinta-feira, recebeu no email profissional oito relatórios de exames de utentes.

O Bloco de Esquerda já questionou o Governo pelas causas destas queixas dos profissionais e perante a diminuição das caixas de correio.

"Esta é uma decisão incompreensível e o Bloco de Esquerda vê com enorme preocupação as dificuldades resultantes desta redução. Já em situação normal não faria sentido, mas agora, e perante o contexto da atual pandemia de covid-19, dificultar o trabalho aos profissionais de saúde na receção de documentos, análises, resultados de exames e diálogo com os pacientes é simplesmente inaceitável", assinala o deputado bloquista Moisés Ferreira, nas perguntas enviadas ao Ministério da Saúde.

Segundo Moisés Ferreira, "a última coisa que o SNS precisa neste momento é um 'downgrade' [redução] na capacidade de resposta. O reforço deve ser a prioridade e não uma visão economicista que limita os cuidados de saúde prestados em Portugal".

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