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Mitos e factos da covid: do pangolim à máscara, o que aprendemos num ano de pandemia

Mitos e factos da covid: do pangolim à máscara, o que aprendemos num ano de pandemia

Um ano de mitos e factos. De informação e contrainformação. O que a Ciência veio verdadeiramente comprovar sobre o novo coronavírus?

Máscaras: da "falsa sensação de segurança" à obrigatoriedade

"Não use máscara, é uma falsa sensação de segurança". Assim o dizia, há um ano, a diretora-geral de Saúde. Sublinhando, então, Graça Freitas que o importante era o distanciamento social. Sendo que, precisamente, na mesma altura, o Centro Hospitalar Universitário do São João, no Porto, determinava o uso obrigatório de máscara cirúrgica pelos seus profissionais de saúde. O que, garantem, contribuiu para o baixo nível de infeções dentro do hospital logo na 1.ª vaga. Volvido um ano, o seu uso é obrigatório em todo o lado e o incumprimento sujeito a coima. Com países como Áustria, Alemanha e França a proibirem o uso de máscaras sociais e a imporem, nalgumas situações (transportes públicos, por exemplo), a utilização de FFP2, com maior capacidade de retenção de partículas. O Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças não recomenda o uso de FFP2, nem proíbe o uso de máscaras comunitárias. Seguindo a Direção-Geral da Saúde - em linha com outros países europeus - as recomendações daquele organismo.

Do pangolim aos morcegos. O que ainda não se sabe sobre a origem do novo coronavírus

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De fuga laboratorial a transmissão pelo pangolim. Muito foi dito, escrito e descrito sobre a origem do SARS-CoV-2. Sem nenhuma verdade absoluta, com os países expectantes pelo relatório final da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a origem do novo coronavírus após uma equipa de peritos ter estado em Wuhan (na China, onde tudo começou) a tentar perceber como o SARS-CoV-2 passou do animal para o homem. Essa, aliás, parece ser a única (quase) certeza: tudo começou numa espécie animal. "Várias hipóteses estão ainda a ser investigadas, sendo que a transmissão com origem num animal através de um contacto próximo com espécies selvagens é atualmente a que mais suporte tem para explicar a origem da transmissão do SARS-CoV-2", explica ao JN Raquel Guiomar, responsável pelo Laboratório Nacional de Referência para o vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). Segundo a virologista, "a dispersão deste agente à escala global é um fenómeno que ocorre após uma adaptação do vírus à espécie Humana potenciado pela movimentação populacional a nível global, o que permite a exposição de muitos indivíduos suscetíveis ao novo agente da infeção respiratória, o SARS-CoV-2, originando a situação de pandemia que ainda hoje vivenciamos".

Hidroxicloroquina, suplementos de vitamina D, injeções de lixívia. Um não rotundo!

Ouvimos de tudo para curar ou reduzir o risco de infeção por SARS-CoV-2. Para a história ficará, mais uma vez, Donald Trump, quando sugeriu a injeção de lixívia no organismo para matar o vírus: "Pode fazer-se com que entre nos pulmões. Eu não sou médico. Mas isso teria um efeito tremendo nos pulmões. Pode curar num minuto". Os médicos deitaram as mãos à cabeça e as sociedades científicas de imediato emitiram alertas. "Em nenhuma circunstância pulverize ou introduza lixívia ou qualquer outro desinfetante no seu corpo", frisa, ainda hoje, a OMS. Tivemos também a acesa discussão em torno da hidroxicloroquina, fármaco usado, por exemplo, no tratamento da malária. No início, a sua utilização foi preconizada por diversas linhas de orientação clínica internacionais, mas um estudo - entretanto, questionado - publicado no "The Lancet" veio alertar para reações adversas graves e aumento de mortalidade. Em Portugal, seguindo a recomendação da OMS, o recurso àquele fármaco para tratamento de doentes covid foi suspenso. Ao JN, a Autoridade Nacional do Medicamente (Infarmed) sublinha que "os dados mais recentes indicam que a hidroxicloroquina não deve ser utilizada na covid por ausência de efeitos favoráveis na covid após ensaios e estudos clínicos". Já os banhos de sol e reforço de suplementos de vitamina D revelaram-se placebos. "Atualmente, não há orientação sobre o uso de suplementos de micronutrientes [vitamina D, C e zinco] como tratamento de covid-19", avisa a OMS. Explicando que podemos contrair o vírus independentemente de o "tempo estar ensolarado ou quente".

Dos grandes vetores de transmissão às menos infetadas. Um ano difícil para as crianças

A vivermos o desconhecido, as crianças viram-se adjetivadas de grandes transmissoras do novo coronavírus. Multiplicaram-se estudos ao longo do ano, a dizer isso e o seu contrário. O que sabemos hoje? "As crianças, atualmente, não são o grupo etário com maior numero de infeção sintomática, comparativamente com o grupo dos adultos. Grande parte dos casos reportados contraíram infeção por contacto próximo com familiares positivos para covid-19", desmonta a virologista Raquel Guiomar. Num dado já adquirido: são maioritariamente assintomáticas, o vírus pega-lhes como uma constipação, mas nada que desobrigue as regras de etiqueta respiratória. Porque "apesar de na maioria das crianças os sintomas se apresentarem como ligeiros, estas podem ser transmissoras da doença". E se, quando se descobriu a variante inglesa, os olhos seguiram no mesmo sentido, um estudo do INSA veio revelar não haver diferenças etárias.

Vírus ou bactéria? Vírus. E, como tal, não se trata com antibióticos

O ano pandémico que agora assinalámos foi prolífico em desinformação, exponenciada pelas redes sociais. Com o "fact-checking" a entrar no léxico. Foi o que aconteceu quando se começou a dizer que o SARS-CoV-2 era uma bactéria. E, por isso, podia ser tratado com antibióticos. Duplamente falso. Primeiro, analisa a virologista Raquel Guiomar: "A rápida identificação do novo coronavírus foi possível devido a metodologias que permitem a descodificação do código genético, como a sequenciação genómica, permitindo identificar de forma muito fiável a filogenia e identificação do novo vírus, designado por SARS-CoV-2, atualmente responsável pela nova doença denominada por covid-19". Vírus, portanto. Sendo que, explica o Infarmed, "os antibióticos atuam sobre infeções causadas por bactérias e não por vírus". Apesar de poderem "ser considerados no tratamento das complicações associadas a covid-19 mediante prescrição medica". Isto porque, adianta a OMS, "algumas pessoas que ficam doentes com covid-19 também podem desenvolver uma infeção bacteriana como complicação".

Climas quentes podem desacelerar a transmissão do vírus? O baixo impacto do clima. Ou talvez não

Há um ano, faziam-se projeções de desaceleração pandémica olhando ao clima. De olhos postos no hemisfério Sul. A disseminação do novo coronavírus em países como o Brasil veio demonstrar que o calor não quebra a cadeia de transmissão, podendo, no entanto, de acordo com um estudo publicado na "Science", modular a sua intensidade. Por outro lado, explica ao JN a virologista do INSA, "os vírus responsáveis por infeções respiratórias são mais frequentemente detetados nos meses de inverno, quando a temperatura atinge valores mais baixos", sendo "nestas condições climatéricas que os vírus conseguem resistir durante mais tempo nas superfícies e no ambiente". Mais, prossegue, "a transmissão do SARS-CoV-2 ocorre através da emissão de micropartículas de secreções respiratórias que são emitidas para o meio ambiente quando respiramos ou espirramos", aerossóis que, "quando inalados, permitem que o vírus infete as células do trato respiratório superior onde se multiplica e causa infeção". Acresce uma dúvida a que a Ciência ainda não deu resposta: a sua sazonalidade. "A circulação sazonal do SARS-CoV-2 ainda não se verificou, mas poderá ser uma realidade nos próximos invernos", conclui Raquel Guiomar.

Da pimenta às bebidas alcoólicas, passando pela água das piscinas e pela picada de mosquito. Tudo para esquecer

O SARS-CoV-2 não se transmite através da água durante a prática de desportos aquáticos, como a natação. Nem tão pouco adianta temperar a comida com pimenta e piripíri extra. Ao vírus, é-lhe igual. Ingerir grandes quantidades de álcool garante-lhe uma ressaca e problemas de saúde futuros. Não mata o vírus, portanto. Se dúvidas havia, também se sabe hoje que não se transmite pela picada de mosquito.

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