1923-2020

Morreu Eduardo Lourenço, o homem que manteve o espanto até ao último suspiro

Morreu Eduardo Lourenço, o homem que manteve o espanto até ao último suspiro

O ensaísta Eduardo Lourenço, de 97 anos, morreu, esta terça-feira, em Lisboa.

Via o esplendor em tudo o que o rodeava, até no caos, sem nunca abrir mão daquela que considerava ser a sua aliada maior: a capacidade de espanto. Figura maior da História de Portugal da segunda metade do século XX, Eduardo Lourenço faleceu, esta terça-feira, aos 97 anos .

Adoentado há muito tempo - a sua derradeira aparição pública foi no dia do seu aniversário, a 23 de maio de 2019, já muito debilitado -, deixa uma obra imensa cujas ramificações e influências se estenderam à Filosofia, Literatura e História, embora tenham abarcado também outras áreas do saber.

Aos que o questionavam sobre as razões de tamanha sede de conhecimento, "culpava" o seu "horror ao concreto", responsável pelo apego extremo aos livros e à manifesta inaptidão para atividades físicas desde muito cedo.

Leitor voraz, escreveu de forma não menos intensa, legando-nos títulos tão essenciais como "O labirinto da saudade - psicanálise mítica do destino português", "Fernando, rei da nossa Baviera", "O canto do signo" ou "O esplendor do caos".

Portugal foi sempre uma preocupação permanente para si. Mesmo à distância, captou-lhe o sentido e tudo fez para descodificar a sua essência. Glosou a identidade portuguesa em textos que não necessitaram que o tempo os fixasse para se tornarem canónicos. Para Lourenço, Portugal sempre padeceu de "hiperidentidade", bem evidente na "mórbida fixação e no gozo da diferença que nos caracteriza no contexto de outros povos, nações e culturas".

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O trauma da perda do império, ainda bem presente, serviu de mote àquela que será a sua obra maior. Lançada escassos quatro anos depois do 25 de Abril, "O labirinto da saudade" foi decisivo para a tarefa de pensar Portugal. À luz do seu glorioso passado, mas também com os olhos postos no futuro que já então se interpunha.

Quarenta anos depois, as suas diretrizes permanecem intactas, embora o ensaísta tenha sido o primeiro a reconhecer que "as profundas mudanças operadas em Portugal e no mundo" suplantaram as que foram vivenciadas em séculos. "Como todo o Ocidente, tornámo-nos todo o mundo e ninguém", sintetizou.

A aldeia e o mundo

Por muito que afirmasse estar nos antípodas deste mundo veloz (escrevia à mão e não consultava sequer a Internet), compreendeu e explicou estes tempos como poucos, sintetizando as suas contradições, desafios e complexidades de um modo empolgante.

Homem universal (viveu em França durante décadas e passou longas temporadas na Alemanha ou Brasil), dizia que São Pedro de Rio Seco, a pequena aldeia do concelho de Almeida (Guarda) onde nasceu, em 1923, era o seu chão, o lugar a partir do qual olhava para o resto do mundo. As memórias da infância e juventude (do pai que se ausentou cedo demais do seu convívio à passagem pela rígida escola militar) acompanharam-no pela vida fora e assumiram uma importância mítica que sempre fez questão de sublinhar.

Contra a ortodoxia

Logo no primeiro livro, "Heterodoxia", em 1949, marcou a diferença, ao romper com a compartimentação estanque dos saberes. "No plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na política, o homem é uma realidade dividida. O respeito pela sua divisão é a heterodoxia", defendeu.

Não eram apenas os assuntos ditos elevados que atraíam a sua atenção. Também o lado mundano, como o universo do entretenimento, exercia uma grande atração sobre si. Numa perspetiva que ia além da do mero "voyeur", para tentar compreender a lógica por detrás do seu funcionamento. Atento aos hábitos, justificava o gosto dos jovens por esses produtos pela "ausência de saídas" e "formatação de exemplos de ascensões rapidíssimas. Bem vistas as coisas, acrescentava, "o culto da idolatria não é novo. A Grécia foi idólatra".

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