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Relatório

Mortes por overdose atingem valor mais alto desde 2009

Mortes por overdose atingem valor mais alto desde 2009

É o valor mais alto desde 2009: no ano passado, 74 pessoas morreram de overdose provocada pelo consumo de substâncias ilícitas. Trata-se de um aumento de 45% face a 2020, sendo que, na grande maioria dos casos, foram detetadas mais do que uma substância no consumidor. Destaca-se, por exemplo, as benzodiazepinas e o álcool.

Os dados constam no relatório anual do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) que traça o retrato da "situação do país em matéria de drogas e toxicodependências" ao longo de 2021. As conclusões serão apresentadas, esta quarta-feira, na Assembleia da República.

Citando os dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, o relatório aponta que, em 2021, registaram-se 413 óbitos relacionados com substâncias ilícitas. Desses, 74 foram consideradas morte por overdose. "Houve um aumento das overdoses face a 2020, representando o valor mais elevado desde 2009. No último quinquénio registaram-se mais overdoses do que no período homólogo anterior, sendo os valores dos últimos quatro anos os mais altos desde 2011", lê-se no documento ao qual o JN teve acesso.

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Nas mortes por overdose, foi detetada a presença de cocaína (51%), metadona (41%) e opiáceos (39%) nos consumidores. "Além do valor atípico de overdoses com metadona em 2021, é de notar que o número de casos com cocaína foi o mais elevado desde 2009", destaca o relatório, dando ainda conta de que os restantes 339 óbitos com a presença de drogas foram atribuídos a morte natural (42%), acidentes (36%), suicídio (13%) e homicídio (3%).

No que toca às prevalências de consumo de "qualquer droga", o relatório cita o inquérito anual "Comportamentos Aditivos aos 18 anos" que dá conta de que 32% dos inquiridos admitiu ter consumido "ao longo da vida", 25% nos últimos 12 meses e de 15% nos últimos 30 dias. O consumo, aponta o documento, é "mais expressivo nos rapazes, existindo também algumas diferenças regionais"

Segundo o SICAD, 2021 ficou ainda marcado por um retomar do número de pessoas readmitidas em tratamento, quer seja em ambulatório ou em internamento. Os serviços tinham sido afetados pela pandemia. Assim, no ano passado, estiveram em tratamento 23 932 utentes com problemas relacionados com o uso de drogas no ambulatório da rede pública. Das 3 236 pessoas que iniciaram tratamento em 2021, 1 538 eram readmitidos e 1 698 novos utentes. Trata-se de um ligeiro aumento (inferior a 2%) dos utentes em tratamento no ambulatório, mas ainda "aquém dos valores pré-pandemia".

Registaram-se ainda 440 internamentos relacionados com o uso de drogas em Unidades de Desabituação (UD) e 1 980 em Comunidades Terapêuticas (CT). É um aumento face a 2020. A heroína "continua a ser a droga principal mais referida entre os utentes em ambulatório e das UD". No caso dos utentes em CT e dos novos utentes em ambulatório, "a cocaína e a canábis são predominantes".

Quanto ao tratamento de problemas relacionados com o uso de drogas no contexto prisional, em dezembro de 2021, 54 reclusos estavam abrangidos pelos programas orientados para a abstinência e 850 em programas farmacológicos.

Também em 2021, houve um aumento de apreensões e quantidades confiscadas da maioria das drogas. "São de assinalar também, como tendências recentes merecedoras de atenção, o desmantelamento nos últimos dois anos de plantações interiores de canábis de dimensão considerável e a maior utilização dos mercados digitais", lê-se.

No documento, João Goulão, coordenador nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool, sublinha a importância de "reforçar o investimento nestas áreas face ao observado impacto inicial da pandemia e ao atual contexto de recessão nacional e global que, como todos sabemos, tende a agravar as desigualdades, a pobreza e as condições de saúde mental, sobretudo nas populações mais vulneráveis".

"Responder de forma célere e eficaz aos desafios futuros implica vontade política na criação de condições para tal, sob pena de se reverterem os ganhos alcançados em saúde e bem-estar social", escreve o responsável.

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