1939-2021

Muitos não contiveram as lágrimas no último adeus a Sampaio

Muitos não contiveram as lágrimas no último adeus a Sampaio

Várias dezenas de populares aguardavam a chegada da urna de Jorge Sampaio, ao final desta manhã de domingo, ao cemitério do Alto de São João, em Lisboa. No último adeus ao antigo presidente da República, muitos não conseguiram conter as lágrimas.

Manuel Oliveira, 71 anos, estava visivelmente emocionado. Discretamente, segurava uma fotografia emoldurada, onde surge na pastelaria Ritz ao lado do antigo presidente da República. O registo é do dia 1 de janeiro de 2002, quando o euro entrou em circulação.

"O presidente, que nos visitava diariamente, nesse dia veio logo de manhã, até antes de abrirmos. Costumava comer uma torrada de pão fininho e meia de leite descafeinado. Eu fui a primeira pessoa a quem pagou em euros e o filho, o André, fotografou o momento", recorda o antigo funcionário da pastelaria Ritz. Dias depois, Sampaio voltou para oferecer a imagem a Manuel.

Esta é apenas uma das dezenas de histórias que o conhecido da família do socialista tinha para partilhar. "Sempre foi muito generoso. Pelo natal oferecia prendas aos funcionários do Ritz e uma vez trouxe um presente a mais e eu fui devolvê-lo. Ele disse-me para o levar para a minha mulher e fiquei muito sensibilizado com esse gesto", recordava Manuel Oliveira, minutos antes da família de Jorge Sampaio chegar ao cemitério e ser acolhida por um longo aplauso.

Teresa Quirino, 72 anos, também tinha uma história para contar. "Morávamos na mesma zona e costumávamos correr por ali, perto do aqueduto, há muitos anos. Estava sempre a meter-se comigo quando eu o ultrapassava. Era muito cordial", recordou.

À chegada da urna ao cemitério, um novo e sentido aplauso. José Sequeira, 64 anos, não conteve as lágrimas. "Sou de uma geração que o 25 de abril permitiu não ir à guerra colonial. Tinha 18 anos. São momentos que nos marcam muito. E Jorge Sampaio foi um dos homens que teve um papel muito importante no 25 de abril. É impossível não sentir emoção", desabafou entre lágrimas.

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João Assunção, presidente da Associação Académica de Coimbra, veio de propósito de Coimbra para prestar uma última homenagem ao antigo chefe de Estado. "É uma figura incontornável da democracia e da resistência estudantil. Teve um papel muito relevante na crise académica de 1962 e na sua vida de estudante passou muitas vezes em Coimbra, ficou muitas vezes escondido da PIDE em repúblicas de Coimbra. Esta é a nossa justa e sentida homenagem".

O jovem estudante, de 24 anos, lembrou ainda que uma das últimas intervenções políticas públicas de Sampaio foi precisamente "a intenção de trazer mais jovens afegãos para as universidades portuguesas, o que mostra o seu empenho para possibilitar um mundo melhor para a nossa geração".

Tiago Girão, estudante da Universidade Nova de Lisboa, partilhava o mesmo sentimento. "Como estudante agradeço muito a liberdade que eu e outros estudantes temos e a luta de Sampaio por um acesso mais justo e igualitário ao ensino", partilhou emocionado.

No meio das dezenas de pessoas que aplaudiam à entrada do cemitério, eram visíveis cravos vermelhos. E uma rosa. Maria Rodrigues fez mesmo questão de levar as duas flores, como símbolos do Partido Socialista e do 25 de Abril, e de as colocar junto ao jazigo de Sampaio.

"Vim aqui porque tenho uma grande dívida com ele. Quando foi o 25 de Abril tinha 14 anos e comecei a admirar este e outros homens de Abril. Foi um estadista, um homem bom e um grande cidadão do mundo. Teve a coragem de pegar nos refugiados, quando várias pessoas criam problemas com a vinda deles, trazê-los para Portugal e fazer com que estudassem, que é o maior bem que se pode dar a uma pessoa", resumiu emocionada.

Junto ao jazigo meia dúzia de pessoas anónimas procuravam um momento de silêncio, mais reservado, para o último adeus. "A ideia é prolongar um pouco a despedida", partilhou Diana Barbosa, 43 anos.

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