Sexualidade

Portuguesas pressionadas a serem boas na cama

Portuguesas pressionadas a serem boas na cama

Quatro em dez portuguesas com vida sexual ativa denunciam problemas sexuais: obter o orgasmo é a segunda maior queixa.

As revistas multiplicam dicas para as mulheres melhorarem o desempenho sexual, os filmes exibem imagens maravilhosas nas quais se alcança sempre o orgasmo e em simultâneo com o parceiro. Tudo isto está a aumentar a pressão sobre as mulheres para serem boas na cama, o que também significa obter orgasmos e de preferência muitos e seguidos, defendem os especialistas. Não atingindo a meta, surge a frustração, alimento de preocupações e angústias. O último estudo dedicado à prevalência dos problemas sexuais, publicado no "Journal of Sex & Marital Therapy" em 2015, indica que 37,9% das mulheres portuguesas com vida sexual relatam problemas a este nível. Hoje é o Dia Mundial da Saúde Sexual.

"Por um lado, a obtenção do orgasmo é um símbolo da emancipação sexual feminina", explica Pedro Nobre, professor universitário e diretor do SexLab da Universidade do Porto. Por outro lado, tornou-se uma obrigatoriedade obtê-lo para provar a boa performance, porque aos parceiros importa acrescentar este trunfo, explica. "Passamos de um extremo a outro. Do pecado à obrigatoriedade", comenta Sandra Vilarinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC). "Vêm ter comigo porque sofrem com a pressão social, pelo facto de não os terem. Julgam que não correspondem ao padrão".

A pesquisa sobre os problemas sexuais de Pedro Nobre e Maria Manuela Peixoto - que ouviu 500 portuguesas entre os 18 e os 79 anos - coloca a dificuldade em atingir o orgasmo como o segundo aspeto mais reportado - 16,8%. Nobre está convencido, porém, de que deve ter havido uma melhoria nos últimos anos neste domínio. "É uma perceção, não há estudo que o prove".

O que mais atormenta as mulheres parece ser a falta de desejo (25,4%), seguindo-se, em terceiro e quarto insuficiente excitação e lubrificação (15,1% e 12,9%). As dores durante o coito afetam 9,8%. O vaginismo aflige 6,6%.

Pedro Nobre associa parte dos sintomas à persistência de um conjunto de mitos. "Há ainda uma sobrevalorização do coito para atingir o orgasmo na mulher, assim como do tempo de duração da relação para lá chegar", explica. Apresenta o clítoris como o elemento central: "Sendo estimulado como o pénis, o tempo para o alcançar nem sequer é diferente do dos homens". Também o tempo por si só, após penetração, "não vai ajudar se não houver excitação prévia".

Sobre o universo masculino, um estudo de 2014 - com uma amostra de 650 indivíduos, da autoria de Pedro Nobre e de Ana Luísa Quinta Gomes - revela que 23,2% sofrem de ejaculação precoce e 10,2% de dificuldade de ereção. A falta de desejo é denunciada por 2,9% e os que não conseguem o orgasmo são 8,2%. "Apesar de mais notória, curiosamente não é a queixa de ejaculação precoce, mas a disfunção erétil o que causa mais embaraço ao homem. Lá está, por colocar em causa o desempenho".

Pedro Nobre e Sandra Vilarinho classificam como "má" a maior parte da informação" existente sobre atividade sexual e põem a tónica na necessidade de uma boa comunicação entre parceiros. "O ideal é explicarem ao outro o que lhes agrada e haver abertura para isso, claro", diz Pedro Nobre, sublinhando que os orgasmos em simultâneo são raridade.

Sandra Vilarinho lembra a importância de se ir "à descoberta do outro; cada pessoa tem um mapa próprio. Não há fórmulas". E sublinha que, na hora do sexo, há muita coisa a negociar, pois o desejo funciona sempre em ritmos diferentes. E é perfeitamente normal que não apeteça aos dois ao mesmo tempo.

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