Investigação

O estudo "naif" que projeta subcontagem de casos de Covid-19 em Portugal

O estudo "naif" que projeta subcontagem de casos de Covid-19 em Portugal

Estudo da London Business School diz que em Portugal se morreu mais entre 16 de março e 5 de abril, mas nem todas as mortes estão relacionadas com a Covid-19. Ainda assim, a investigação aponta para que os números da pandemia estejam a ser registados por baixo em vários países europeus.

Uma equipa de investigadores analisou o número de mortes em diferentes países europeus ao longo dos últimos cinco anos, exatamente nos mesmos dias.

No caso de Portugal, constatou-se que entre os dias 16 de março (data em que foi anunciada a primeira morte por Covid-19) e 5 de abril morreram mais 1087 pessoas, em comparação como o que seria previsível tendo em conta os dados da mortalidade dos anos anteriores. Destas mortes, apenas 311 foram reportadas como tendo por causa a Covid-19, pouco mais de um quarto.

"O nosso exercício é naif, trivial até", repete insistentemente Paolo Surico, um dos autores do estudo. O economista explica que o trabalho não pretende de algum modo interferir com a investigação feita pelos epidemiologistas. "Eles são quem mais sabe. O que nós fizemos foi mostrar que precisamos de mais dados, mais estatística, e que o problema de subcontagem de casos de Covid-19 existe em qualquer país".

O investigador considera que "não há nada de especial" com o caso português e que as pessoas não devem ficar obcecadas com os números reportados pelas autoridades. "Quando olhamos para as estatísticas em qualquer país vemos que há muito mais mortes do que as que são contabilizadas, porque há muita gente que morre sem ser testada. Testados são apenas na maioria das vezes os que têm sintomas e que vão para o hospital".

Os autores do estudo afirmam que há uma contagem de mortes por Covid-19 inferior à que realmente existe, mas não só, apontam também para que o aumento do número de mortes se possa dever à rutura dos sistemas de saúde, nomeadamente no caso italiano, que não conseguem dar resposta a outras situações graves, que terminam em morte.

Com base nos devastadores números de Itália, traçaram as linhas entre o número de mortes esperado para um período de tempo face à estatística dos anos anteriores, as mortes oficialmente confirmadas por Covid-19, e o excesso de mortes por outras causas, não identificadas como infeções pelo novo coronavírus.

Em Itália, entre os dias 23 de fevereiro e 21 de março, há mais 4277 mortes do que seria esperado através da análise de padrões de mortalidade. Estas "mortes inesperadas" podem estar relacionadas com casos de pessoas que morreram em casa ou em lares de idosos sem que lhes tenha sido realizado um teste para a Covid-19.

"Não fiquei surpreendido pelo resultado do nosso estudo. Vai de encontro ao que os epidemiologistas, nomeadamente os portugueses, têm dito. Há algo de muito atípico, muito mais do que o Governo consegue contar. O que sabemos é que o problema é muito maior do que o que pensávamos, quanto maior não sei", assume Paolo Surico.

Testar amostra da população

Uma das propostas da equipa integrada pelo professor da London Business School é que os Governos apostem na realização de testes a uma amostra da população.

Em Itália, país que tem cerca de 60 milhões de habitantes, vão ser testados cerca de 100 a 150 mil habitantes, que compõem a amostra da população. O objetivo é perceber quem pode regressar à vida normal depois do isolamento.

"O que proponho ao Governo português é o mesmo. Testem 10 mil pessoas por exemplo, porque não podem testar 10 milhões, usando os nomes das pessoas que representam a população portuguesa. Têm esses nomes identificados e na mesa do Governo em apenas alguns dias. Em poucas semanas conseguem saber quais as pessoas - onde vivem, em que trabalham, idade, condição sócio-económica, etc. - mais suscetíveis de ficarem infetadas".

Após "comprarmos tempo", Surico acredita que as curvas dos infetados vão subir abruptamente assim que as políticas de restrição de circulação forem levantadas e como tal, é preciso saber "quem sai primeiro" sob pena de voltar a haver uma propagação em grande escala da doença.

"Estou plenamente convencido de que vamos baixar a curva e assim que começarmos a sair, os problemas vão aumentar".

Em termos económicos, o investigador defende que o essencial é garantir que as empresas conseguem continuar a pagar salários, para que por essa via o consumo não fique completamente comprometido.

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