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O ideal romântico dos funcionários clandestinos

O ideal romântico dos funcionários clandestinos

O formato do crânio e as feições do rosto evitam quaisquer enganos: Álvaro Cunhal é este homem de cabelos louros e com óculos de armações grossas que aparece em Janeiro de 1961 na oficina de falsificações do PCP.

Recorre à arte de Margarida Tengarrinha e José Dias Coelho (um destacado activista comunista e artista de mérito que a PIDE haveria de assassinar em Dezembro desse ano) para arranjar um passaporte falsificado que lhe permitisse passar a fronteira de Espanha para França. Acabara de fugir de Peniche. "Reconhecêmo-lo logo", recorda, a sorrir, Margarida Tengarrinha.

O casal de artistas apoiava os funcionários clandestinos do PCP forjando carimbos para as passagens de fronteiras, bilhetes de identidade, passaportes, cartas de condução para as motorizadas e licenças de bicicleta. "Quantas falsificações feitas por nós não passaram debaixo dos olhos da PIDE…", orgulha-se Tengarrinha.

Começou por transformar o folheto "3 páginas" n' "A Voz das Camaradas". Publicava cartas e dava conselhos práticos. Celebrizou o pseudónimo "Leonor" com um artigo sobre a importância de as camaradas terem uma caixa de fósforos junto aos documentos para serem queimados em caso da intervenção das brigadas da PIDE.

Lutou para que as mulheres das casas clandestinas tivessem acompanhamento político por parte dos companheiros para compreenderem os motivos da sua luta e para se desenvolverem culturalmente. Cunhal haveria de ser determinante na definição destas regras: "O Álvaro também olhava para as pequenas coisas e as mulheres passaram a participar nas reuniões políticas gerais".

O aparecimento da Rádio Portugal Livre (RPL), em 1962, a emitir perto de Bucareste, marcou uma nova etapa na luta clandestina. Margarida Tengarrinha e Aurélio Santos participaram na aventura e ambos trabalharam directamente com Cunhal durante o exílio na Roménia. "Recebíamos muita informação do partido, nomeadamente cópias em papel de seda escritas à máquina, fazíamos escuta à Emissora Nacional e líamos os jornais portugueses, ainda que com algum atraso, e reuníamos com o próprio Álvaro Cunhal", refere Aurélio Santos.

A RPL teve uma importância decisiva na organização das lutas no Alentejo pelas jornadas das 8 horas de trabalho e na mobilização para o 1.º de Maio de 1962. "Foi um novo instrumento de organização da luta de massas e teve sucesso ao ponto de as pessoas transcreverem as notícias e depois divulgarem-nas em textos resumidos", recorda Aurélio Santos.

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