Conselhos úteis

O paradoxo da prevenção

As restrições sociais não curam os doentes com Covid-19, nem aumentam a imunidade da população. Ajudam a reduzir a transmissão da infeção na comunidade, a proteger as populações mais vulneráveis, a garantir a resposta dos cuidados de saúde, evitando a saturação do sistema e diminuindo o número de mortes (Covid-19 e não Covid-19).

A nível individual, evocam respostas variadas, particularmente naqueles que não estiveram doentes, que não precisaram de procurar os cuidados de saúde, mas que viram o seu emprego ameaçado (ou perdido). Esta é a situação do paradoxo da prevenção, que ocorre nos tempos de epidemias em que é tomada uma posição que envolve custos de ordem diversa: pessoais, económicos ou sociais. O benefício público é enorme, mas menos percetível a nível individual (podendo mesmo ser visto como um prejuízo).

Evitou-se o caos nos serviços, não houve luta por ventiladores, não morreram muitas pessoas. As camas de cuidados intensivos foram ocupadas por adultos mais jovens, sobretudo entre os 50 e os 70 anos, que sobreviveram porque houve capacidade de resposta. E esta capacidade de resposta abrangeu todos os que dela precisaram (doentes com Covid-19, mas também politraumatizados, acidentes vasculares cerebrais, enfartes...). Infelizmente, como muitas coisas em saúde pública, não é fácil provar que o que não aconteceu teria acontecido se não fossem adotadas as medidas.

Vai ser necessário abrandar as restrições e retomar a vida em sociedade, mas é sempre necessário recordar isto: em termos de imunidade, estamos como estávamos há cerca de um mês (estatisticamente falando). Iremos libertar um lobo junto de um rebanho de ovelhas. Não é negando a situação ou inventando fábulas - e como é fácil acreditar nelas - que vamos conseguir manter a pandemia sob controlo.

O abrandamento das restrições sociais tem de ser feito de forma a minimizar o impacto na resposta dos serviços de saúde e na mortalidade (como se conseguiu até agora). Só será possível se for faseado, se a capacidade de resposta dos serviços de saúde for mantida e se todos seguirmos as regras que têm sido difundidas até à exaustão nos últimos meses e que exigem uma enorme responsabilidade individual - distância física, etiqueta respiratória, higienização das mãos, máscara em ambiente fechado. Todos temos um papel a desempenhar, e o contributo de cada um irá fazer diferença.

Pneumologista

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG