Saúde

O que precisa de saber sobre os cigarros eletrónicos

O que precisa de saber sobre os cigarros eletrónicos

Numa altura em que se regista um aumento acentuado do consumo de tabaco eletrónico - o JN noticiou, em abril deste ano, que os portugueses estavam a consumir o dobro face a 2017 - e em que os riscos associados à sua utilização não são claros, confira abaixo algumas perguntas e respostas para perceber melhor a questão.

O que dizem as autoridades de saúde portuguesas?

A Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) revelaram, na quinta-feira, que a utilização de cigarros eletrónicos ou "vaping" está associada a doenças pulmonares crónicas. As duas entidades recomendam, sobretudo a crianças, adolescentes, jovens adultos e mulheres grávidas, a não utilização de cigarros eletrónicos (com ou sem nicotina), particularmente os que têm líquidos contendo canabidiol e outros derivados de canábis, acetato de vitamina E e diacetil, que, apesar de ainda estarem sob investigação, "parecem ser substâncias associadas a estas lesões pulmonares".

Quanto aos adultos que usam cigarros eletrónicos para deixarem de fumar, a recomendação é que não voltem a fumar tabaco tradicional.

Os consumidores são também aconselhados a não adicionarem quaisquer substâncias aos líquidos legalmente comercializados e ainda a não comprarem dispositivos e líquidos fora do comércio regulado. Em setembro, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) já tinha feito exatamente a mesma advertência, acrescentando que a "utilização modificada ou a adição de líquidos ou óleos contendo derivados de canábis ou outros aditivos" pode ser "especialmente perigosa" e que "a inalação de compostos químicos presentes no vapor dos cigarros eletrónicos representa um risco real". Segundo a SPP, cerca de 80% dos doentes registados tinham consumido produtos com nicotina e derivados da canábis (THC e CBDS).

Casos de doença e morte já registados

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA registou até dia 4 de dezembro 2291 casos de consumidores de cigarros eletrónicos hospitalizados em 50 Estados e dois territórios do país (Porto Rico e Ilhas Virgens). Em metade dos Estados, contaram-se 48 mortes. Embora os mais de dois mil hospitalizados correspondam maioritariamente a jovens, as vítimas mortais eram adultos com problemas de saúde crónicos.

Segunda a agência norte-americana, alguns doentes apresentaram sintomas como tosse, dor no peito e dificuldade em respirar, que se agravaram bastante num curto período de tempo. Outros queixavam-se de náuseas, vómitos, diarreia, fadiga e perda de peso. Houve ainda casos de insuficiência respiratória, que acontece quando os pulmões apresentam dificuldades para fazer as trocas gasosas normais

Embora os dispositivos de vaporização ou ingredientes não estejam comprovadamente ligados às doenças, foram o denominador comum em todos os casos registados nos EUA.

Casos clínicos semelhantes estão atualmente em investigação em países como Canadá, Filipinas, Bélgica e Suécia.

O que estão a fazer as autoridades norte-americanas?

Em setembro, o secretário de Estado da Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Alex Azar, anunciou que a "Food and Drug Administration" -regulador norte-americano para a área da saúde, medicamentos e alimentação - pretendia acabar, no país todo, com o mercado de cigarros eletrónicos com sabor, especialmente os que são apreciados pelo público jovem (como algodão doce e queques). De foram ficaram os cigarros eletrónicos com sabor de tabaco, cujos fabricantes têm até maio para pedir aprovação dos seus produtos.

Além disso, a FDA recolheu cerca de 120 amostras de diferentes químicos, incluindo nicotina, canabinóides, aditivos e pesticidas, para serem testados, e está a investigar vários tipos de dispositivos, desde os que contêm componentes de canábis até aos cigarros eletrónicos simples.

O que dizem os estudos?

Um relatório de 2018 da Academia de Ciências e Medicina dos Estados Unidos, que analisou 800 estudos científicos, concluiu que fumar cigarros eletrónicos aumenta o risco de vício nos jovens, encorajando-os a fumar tabaco, mas é menos perigoso para a saúde dos adultos do que os convencionais, podendo em alguns casos ajudar a parar de fumar. Perante estes dados, os investigadores concluíram não ser "possível saber se o cigarro eletrónico tem um impacto positivo ou negativo para a saúde pública".

A Universidade de Harvard analisou os vapores de 51 modelos de cigarros eletrónicos e, em 47, detetaram pelo menos uma susbtância nociva (diacetil, acetoina ou 2,3-pentanediona) associada a doenças respiratórias graves.

No Canadá, um grupo de investigadores anunciou, em novembro, a descoberta do que consideraram ser um novo tipo de lesão pulmonar causado pela vaporização com cigarros eletrónicos com líquidos de sabor e que é semelhante à bronquiolite obliterante. Segundo os investigadores, estas lesões são diferentes dos casos associados ao consumo de cigarros eletrónicos sem aromas.

Que países baniram a utilização?

Nos EUA, o Estado do Michigan foi o primeiro a proibir a comercialização de cigarros eletrónicos. Seguiu-se a cidade de São Francisco, onde novas medidas serão implementadas dentro de alguns meses, e o Estado de Nova Iorque, em setembro. Os casos que surgiram, a falta de informação sobre os seus efeitos a longo prazo e o elevado risco de dependência da nicotina em jovens estão na base da proibição. Na Índia, a utilização dos dispositivos em causa também já está banida desde setembro.

A que sintomas deve estar atento?

Apesar de variável, a doença apresenta algumas características comuns, nomeadamente sintomas respiratórios, gastrointestinais e outros mais gerais. A nota das autoridades de saúde portuguesas recomenda que os consumidores devem "estar atentos e procurar um médico imediatamente se desenvolverem os seguintes sintomas: tosse, falta de ar, dor no peito, febre, calafrios, náuseas, vómitos, dor abdominal ou diarreia". Os sintomas podem desenvolver-se ao longo de alguns dias ou várias semanas.

O que fazer em caso de sintomas?

A SPP recomenda ​​​​​​aos consumidores de cigarros eletrónicos que desenvolvam sintomas respiratórios agudos a procurar um médico e a informá-lo sobre o produto que consomem. Por sua vez, os médicos que assistem doentes com esse quadro clínico a "obter informação detalhada sobre o uso destes dispositivos e comunicá-lo às autoridades de saúde, em caso de suspeita".

Que papel tem a Comissão Europeia?

A Comissão Europeia, que "estabelece requisitos de segurança, qualidade e notificação para os cigarros eletrónicos", pediu, em 2016, a elaboração de um relatório sobre os potenciais riscos associados ao uso de cigarros eletrónicos e informações sobre especificações técnicas para mecanismos de recarga. Desde então que a questão tem vindo a ser discutida pela Comissão, "em termos de avaliação e gestão de risco e eventuais medidas a adotar", lê-se no documento da DGS e da SICAD.

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