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O reencontro de Fernanda com a professora da "caixa mágica"

O reencontro de Fernanda com a professora da "caixa mágica"

Numa aldeia do Marco de Canaveses, meninos faziam o 5.º e 6º anos pela televisão, com a ajuda de dois monitores na sala. Antiga aluna reconheceu a professora na rua e desde então cruzam-se por vezes no Porto.

Em 1978, na pequena aldeia de Favões, no Marco de Canaveses, só havia uma televisão. Propriedade de um morador com mais posses, era ali que Fernanda Silva e alguns amigos assistiam à telenovela brasileira "Escrava Isaura". A obrigatoriedade de estarem na escola às 13.30 horas, apesar de as aulas só começarem meia hora mais tarde, impedia-os de verem os episódios até ao fim. Mas não fazia mal: iam ter oportunidade de voltar a ver a "caixa mágica", que lhes dava acesso a um mundo que desconheciam, através da Telescola. Foi aí que viu, pela primeira vez, Fátima Bastos, que viria a "reencontrar" 18 anos depois.

"Para nós era espetacular. Como é que uma pessoa estava dentro de uma caixinha pequenina?", recorda Fernanda, hoje com 54 anos. "Como é que a televisão abria e aparecia uma professora? Era magia".

Uma figura pública

Filha de um casal humilde, com seis filhos, garante que ficou bem preparada após ter concluído o 5.º e o 6.º anos através da Telescola, já que não havia escola do Ciclo Preparatório em Favões. Além dos professores que ensinavam pela televisão, havia dois professores primários na sala, que esclareciam as dúvidas dos alunos. Um acompanhava as aulas de Letras, outro de Ciências.

Concluída a escolaridade obrigatória da época, era preciso contribuir para as despesas da casa, pelo que Fernanda foi trabalhar para o Porto, onde ficou a viver.

Dezoito anos mais tarde, quando trabalhava numa confeitaria, olhou para Fátima Bastos e ficou a pensar de onde a conhecia. A segunda vez que a viu já não teve dúvidas: era a professora-apresentadora que lhe dava aulas de Matemática. "A imagem era exatamente a mesma. A de uma senhora muito bem-posta e vestida a rigor", explica ao JN.

Apesar de nunca ter visto os alunos a quem dava aulas, Fátima Bastos, 73 anos, ficou satisfeita por conhecer "Fernandinha", com quem se cruza com regularidade, pois mora perto da frutaria que a antiga aluna abriu na Rua da Alegria, no Porto.

"É engraçado porque os alunos achavam que nós é que éramos os professores", comenta Fátima. E, na realidade, eram, pois os dois monitores que davam apoio aos alunos na sala só tinham o curso do Magistério Primário, apesar de terem formação ministrada pela Telescola.

Fátima integrou a equipa de Matemática, entre 1977 e 1982, que preparava e planificava todas as aulas dos 5.º e 6.º anos. Escolhida pelos colegas para "dar a cara" nas aulas do 5.º ano, escapou à fase das emissões em direto. Mesmo assim, não esquece as peripécias da primeira gravação. "Foi um horror. Enganei-me não sei quantas vezes", recorda a docente. "Como não estava habituada, não olhava para o sítio que devia, e punha-me de costas", revela, bem-disposta.

"Um trabalho árduo"

"Ia para o ar 20 minutos, mas demoravam muito tempo a preparar", sublinha Fátima. A equipa de Matemática fazia ainda um livro por período, fichas de apoio, seis fichas de preparação para avaliação, e as fichas de avaliação. Estes materiais, assim como as correções, eram preparados para os monitores, a quem também davam formação. Além disso, ainda produziam filmes.

"Era um trabalho muito árduo, mas muito bem feito. Foi uma experiência muito bem conseguida", assegura Fátima. Apesar disso, recebia o mesmo ordenado, pago pela Escola Preparatória Augusto Gil, no Porto, e tinha de andar bem vestida e ir mais vezes ao cabeleireiro. Transformou-se numa figura mediática, mas "achava imensa graça ser reconhecida na rua".

A partir de segunda-feira, a experiência da escola pela televisão regressa para milhares de alunos do Básico devido à Covid-19.

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