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O regresso a Wuhan de três treinadores portugueses

O regresso a Wuhan de três treinadores portugueses

Luiz Felipe, Miguel Matos e Luís Estanislau, treinadores de futebol portugueses, viviam e trabalhavam em Wuhan, quando a cidade chinesa se transformou no epicentro do vírus que haveria de tomar conta das vidas de todo o mundo. Depois de um período em Portugal, já regressaram a território asiático e contam como está a ser a nova normalidade.

O treinador de futebol Luiz Felipe diz que a vida em Wuhan segue "normal", mesmo com regras como o uso de máscara. "Faço o que eu quiser. Se tiver de ir a um restaurante, vou. Se tiver de ir a um shopping, vou. Se tiver de ir a todo o lado, vou, desde que siga as regras. A vida, dentro do que é a pandemia, está normal", descreve à Lusa.

Repatriado para Portugal no início de fevereiro, juntamente com outros 19 cidadãos lusos que viviam na cidade, então em confinamento, o técnico, de 55 anos, regressou à China no final de julho para retomar o trabalho no Hubei Chufeng Heli, equipa do terceiro escalão chinês.

Chegado à Ásia, Luiz Felipe realizou vários testes de despiste no aeroporto e foi transportado para um hotel onde esteve duas semanas de quarentena, tendo recebido três refeições diárias sem sair do quarto.

No regresso à nona cidade mais populosa da China, com cerca de 11 milhões de habitantes, o treinador luso-brasileiro encontrou a "situação completamente controlada", até porque o país continua a impor regras como o uso de máscara em espaço público e a instalação de uma aplicação no telemóvel para se controlar a entrada de pessoas em superfícies comerciais. "Temos de ter o 'código verde', que é uma aplicação no telemóvel. A qualquer lugar que vamos, principalmente shoppings e grandes superfícies, medem-nos a temperatura e temos de mostrar essa aplicação. Se a aplicação está verde, entra-se. Se não estiver, não se entra", explica.

Luiz Felipe elogia assim a capacidade das autoridades locais e da população para impedirem o aparecimento de uma segunda vaga num país que, segundo a Comissão de Saúde da China, mantém os 4634 óbitos desde maio, entre um total de 86.976 pessoas infetadas desde o início da pandemia. "Mal há casos, fazem logo testes e tiram as pessoas de circulação, até elas estarem outra vez em condições. Às vezes, até me surpreendem. Algumas pessoas que trabalham connosco dizem-nos para termos cuidado por surgirem casos numa cidade próxima. Mas essa cidade está na província de Sichuan, a 900 quilómetros daqui. E os casos são três ou quatro. Mas elas alarmam-se", conta.

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O técnico diz ainda que, na China, têm encarado o novo coronavírus como uma "guerra", ao passo que, na Europa, há um enfoque nas "preocupações com a liberdade", e confessa ter sentido mais os efeitos da pandemia entre março e julho, período em que esteve em Guimarães, cidade em que reside quando volta a Portugal. "Senti aquela sensação de que podemos ficar contagiados. Começámos a ter pessoas amigas, familiares, pessoas próximas a nós que começaram a contrair o vírus. Portanto, começámos a achar que o vírus estava perto", recorda.

O zelo chinês para com a pandemia de covid-19 estendeu-se ao futebol, já que, em vez de realizarem jogos em casa e fora, as equipas do terceiro escalão concentraram-se em Kunming, cidade no sul do país, para realizarem o campeonato de 2020. "Estivemos num lugar que tinha três hotéis e vários campos de futebol. Estivemos lá confinados 40 dias. Estivemos lá cinco semanas e fomos testados cinco vezes. Se alguma equipa chegasse à competição com algum caso [de infeção], não poderia entrar dentro do centro de estágio", lembra.

Após dois anos em Wuhan, Luiz Felipe está prestes a regressar a Portugal, juntamente com os outros elementos lusos da equipa técnica, porque o clube vai-se fundir com uma academia de futebol na próxima época. "O contrato acabou e não vamos continuar. Fizemos um campeonato muito acima do esperado. Mas o clube acabou. No seu lugar, vai entrar uma fusão dessa academia com o clube", detalha o técnico que, ao longo da carreira, também já representou Vitória de Guimarães e clubes da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

O treinador de futebol Miguel Matos esteve confinado em Wuhan no final de janeiro, quando o novo coronavírus se disseminou pela cidade chinesa, e contraiu-o em Portugal, em setembro, após trocar o Hubei Chufeng Heli pelo Gil Vicente.

Depois do regresso a solo luso no início de fevereiro, num voo de repatriamento coordenado por autoridades europeias, o treinador de guarda-redes ia regressar à China no final de julho, mas o convite gilista fê-lo permanecer em Portugal, onde viria a ficar infetado, face ao surto que, em setembro, afetou 15 pessoas no clube, entre jogadores, técnicos e elementos da estrutura do futebol.

"Há um pormenor castiço, que, na altura, não teve piada: fugi do vírus de Wuhan e fui dos primeiros no Gil Vicente a contraí-lo. Não tive sintomas. Foi detetado positivo [no teste]. Tivemos logo de vir para casa. Foi na altura em que apareceu um surto. Ao fim dos 10 dias, fui fazer o teste novamente e já deu negativo", recorda à Lusa.

Para Miguel Matos, o ano prestes a terminar fica marcado pela troca de clube, mais a pensar na família e na progressão da carreira do que em "termos financeiros", pelos confinamentos e ainda pelas mudanças nas rotinas sociais.

"Isto realmente veio alterar a vida de todos nós e a minha completamente. Quando vinha passar férias, juntava-me com os meus irmãos e com um grupo de amigos várias vezes, para 'matar saudades'. Desde fevereiro até agora, juntei-me muito poucas vezes com eles. É estranho. A parte social mudou completamente", analisa.

Desde que a pandemia de covid-19 surgiu em Portugal, em março, o responsável pelos guardiões gilistas limitou as práticas ao ar livre, fazendo apenas "exercício e caminhadas em horas com pouca gente na rua".

Quando esteve isolado em Wuhan, entre 22 de janeiro e 1 de fevereiro, juntamente com o treinador do Hubei Chufeng Heli, Luiz Felipe, e o preparador físico, Luís Estanislau, o técnico ainda podia ir ao supermercado, mas, já depois do regresso a Portugal, o Governo chinês impediu as saídas à rua na urbe com cerca de 11 milhões de habitantes, ao criar uma bolsa de voluntários para entregar comida. "O governo é que levava os alimentos a casa. Não havia escolha. Levavam os legumes, as massas e toda a gente ficava com os mesmos bens. Aqui, podíamos dar aquele passeio de cinco a 10 minutos para atividade física, enquanto estivemos confinados. Lá, na China, não", esclarece.

Essa regra levou mesmo um dos guarda-redes do Hubei Chufeng Heli, do terceiro escalão chinês, a inscrever-se na bolsa de voluntários para poder "fazer o treino" e "manter-se em forma", ao passo que os restantes atletas se limitavam a fazer os exercícios recomendados através da plataforma Zoom, em suas casas, conta Miguel Matos.

Convicto de que é importante "haver futebol" numa altura em que as pessoas estão mais em casa, o treinador diz-se "muito feliz" no Gil Vicente, mas não descarta, no futuro, voltar à China, um país onde "gostou muito de trabalhar". "A maioria das pessoas, em Portugal, não tem noção do que é a China. É um país do outro mundo", reitera o técnico, que já passou ainda pelas seleções da Associação de Futebol de Braga, pelo Desportivo das Aves, pelo Santa Clara e pelo Al-Nahda, clube de Omã, no Médio Oriente.

Luís Estanislau, 28 anos, preparador físico do mesmo clube, regressou, no final de julho, a Wuhan, e, depois de nova quarentena, começou a preparar uma época que decorreu entre setembro e novembro. "Foi uma época muito mais intensa. Houve pouco tempo para preparar taticamente os jogadores e foi muito exigente fisicamente. E [foi] muito exigente também mentalmente e psicologicamente, porque tínhamos de estar confinados a um espaço e não podíamos fazer a nossa vida normal", salienta, em declarações à Lusa.

Num cenário em que as 21 equipas em prova, repartidas por duas séries, tinham de jogar à quarta-feira e ao fim de semana de forma ininterrupta, os treinos foram planeados para garantirem a "recuperação" dos atletas, recorda o técnico.

"A recuperação foi o foco principal, desde banhos de gelo, desde massagens. Depois, também [houve] a exigência de mudar mais vezes de jogadores. Ou seja, o onze inicial mudava 50% de jogo para jogo, para que conseguíssemos chegar ao final da época com jogadores frescos", esclarece.

As rotinas de Luís Estanislau começaram, porém, a mudar antes, quando ainda se encontrava em Guimarães, a sua 'cidade berço', e orientava os jogadores à distância, sabendo que alguns deles não tinham as melhores condições para treinar dessa forma.

"Quando estava em Portugal, uma coisa que mudou bastante foram os treinos online. Diariamente tínhamos de alterar os treinos, porque alguns jogadores não tinham algum tipo de materiais ou determinado espaço para fazerem determinados exercícios. Tive de repensar e de mudar muito os planos de treino, para que os jogadores não fossem abaixo fisicamente", lembra.

Depois de ter visto o regresso a Portugal como positivo, por "voltar a casa" e "estar com a família", o preparador físico confessa que se começou a sentir "aborrecido" passado algum tempo, face ao confinamento vigente no território nacional, e diz ter sentido falta de ir ao ginásio, algo que o fez comprar algumas máquinas para uso doméstico.

"O ginásio faz parte do meu quotidiano. Faz parte do meu dia a dia já há muitos anos e não abdico. Mas aí, em Portugal, tive até de comprar várias máquinas de ginásio a um ginásio que fechou. E eu vi aí uma oportunidade de adquirir várias máquinas. Comprei as máquinas e coloquei-as em casa. Em vez de eu ir ao ginásio, veio o ginásio até mim", conta.

Após mais de cinco meses em Guimarães, o treinador esteve em quarentena por duas semanas após o regresso à China e concentrou-se no campeonato nos três meses seguintes, limitando-se a uma vida repartida entre a casa e o trabalho, mas reatou uma "vida social" normal durante o mês de dezembro, indo, por exemplo, a restaurantes e a bares e até viajando no interior do país.

"Quando regressei a Wuhan [após o campeonato], foi uma vida normal. Fazia a minha rotina normalíssima. Tirei uns dias de férias. Viajei até ao sul da China, para uma ilha fantástica, nuns dias de calor em pleno dezembro. Foi bom. Aqui na China não se sente muito o vírus", descreve.

Após duas épocas no Hubei Chufeng Heli, o preparador físico, que já passou pelos escalões de formação de Vitória de Guimarães e de Sporting, terminou o contrato com o clube de Wuhan e diz ter recebido "vários convites" de outros emblemas para prosseguir a carreira em território chinês.

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