Combate à Sida

O testemunho de Júlio: "Naquela altura, ter VIH era uma sentença de morte"

O testemunho de Júlio: "Naquela altura, ter VIH era uma sentença de morte"

Júlio Peixoto foi uma das primeiras pessoas a ser diagnosticado com o vírus em Portugal. O preconceito associado levou a que não quisesse partilhar o problema.

Júlio Peixoto, 52 anos, é um dos doentes seropositivos mais antigos do país e um dos primeiros a ser diagnosticado em Portugal. Os médicos comunicaram-lhe que era portador do vírus no início da década de 80, do século XX, numa altura em que o preconceito falava mais forte, impedindo-o de partilhar com os mais próximos a sua condição. A infeção foi-lhe transmitida por uma namorada.

"Não podia contar a ninguém. Dizia-se que era como a peste", lembrou em conversa com o JN, para evocar o Dia Mundial de Luta contra a sida que hoje se assinala. Algum tempo depois é que contou a uma vizinha, enfermeira no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, que lhe recomendou que mantivesse o silêncio. Só nos anos 90 é que começou a conhecer pessoas com a doença.

"Naquela altura era uma sentença de morte", conta, mas quis a sorte, e os seus genes, que a infeção só se viesse a manifestar 20 anos mais tarde. "A doutora Odette Ferreira chamava-me à Faculdade de Farmácia para me tirarem sangue e mandarem amostras para o estrangeiro. Estavam todos admirados", por ser um caso raro, lembra.

Chávena atirada ao lixo

Acabaria por ser um do pioneiros da "Casa Amarela" (Residência de santa Rita de Cássia), instituição criada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em 1989, para ajudar portadores do VIH/sida sem apoio familiar. A notoriedade acabaria por lhe trazer alguns dissabores. "Como dava muito a cara, quando ia beber um café deitavam fora a chávena que tinha usado".

Em 1997 casou-se com uma mulher igualmente seropositiva. A união durou seis anos, mas não tiveram filhos. Deixou de esconder a infeção e nos sítios por onde trabalhou, indústria hoteleira e mais tarde numa empresa de limpezas, não sente que tenha sido discriminado. Apenas numa outra situação, em que se candidatou a um lugar de repositor num hipermercado, é que acabaria rejeitado: contou a verdade e não o quiseram contratar. Atualmente está reformado, devido a um acidente de trabalho.

O seu dia a dia foi sempre normal. O único cuidado que tem é com a medicação. Começou por tomar oito medicamentos, atualmente são dois. Gosta de atletismo e chegou a correr vários anos a Meia Maratona de Lisboa.Depois, por achar que era uma prova demasiado mercantil, passou a correr por causas, como a luta contra o cancro e o combate à violência doméstica.

Menos efeitos adversos

Atualmente Júlio Peixoto é um dos cerca de 3300 doentes tratados no Santa Maria. "Um pouco mais de quatro mil, se somarmos os que são seguidos no Hospital Pulido Valente" (que também integra o Centro Hospitalar Lisboa Norte), explica Álvaro Aires Pereira, diretor do serviço de infecciologia.

O médico conta que um dos avanços no tratamento tem a ver com o aparecimento de novos medicamentos, que permitem uma posologia mais adequada e menos efeitos secundários. Na sua perceção, o número de pessoas com VIH/sida continua a diminuir e muitos dos novos casos são de pessoas que chegam do estrangeiro.

Se há três décadas as hipóteses de sobrevivência era reduzida, atualmente os doentes seropositivos sofrem de outras doenças que mais provavelmente lhes irão causar complicações que levem à morte, como o resto da população. "Diabetes, doenças cardiovasculares e algumas neoplasias", prossegue.

Medicamentos nas farmácias para doentes do S. João

Os doentes de VIH/sida que são seguidos no Hospital de S. João, no Porto, que vivem nos concelhos de Maia e Valongo e nos distritos de Braga e Viana do Castelo vão poder começar a levantar a medicação nas farmácias mais perto de casa em vez de terem de se deslocar ao hospital. O projeto chama-se "Farma2Care" e é hoje apresentado. Carlos Lima Alves, responsável pelo projeto, adiantou que a adesão, quer dos doentes quer das farmácias, é voluntária, mas já são 98 as farmácias do distrito de Braga que aderiram. Os doentes podem começar a inscrever-se, o objetivo é que passem a levantar medicamentos para um mês.

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