Reportagem

O vírus pelos mais velhos: "Já estou velha, não faço falta, tenho medo é pelos meus"

O vírus pelos mais velhos: "Já estou velha, não faço falta, tenho medo é pelos meus"

O isolamento traz "recessão emocional" e fará aumentar depressões e stress, alerta a Ordem dos Psicólogos. Portugal tem mais de dois milhões de idosos e muitos vivem sozinhos. Como vencem a solidão no terceiro país mais envelhecido da Europa?

Bananas. Foi logo nisto que pensou a Fernandinha, "e agora onde as vou arranjar?". Há muito que o médico a manda comer uma banana por dia, "tem que ser, é intestinos, e baixa-me a pressão arterial, diz ele", além das vitaminas. "Como vai agora ser?" E ela afligiu-se ainda mais do que já estava.

81 anos, Fernanda Vidal Santos, da freguesia de Valongo do Vouga, Águeda, mora sozinha há oito anos, desde que lhe morreu o marido acamado com asma, a faltar o ar. "A minha filha veio logo. Eu disse-lhe que não, ó Fátima, não venhas, ela também tem asma, coitadinha, mas é teimosa, ó mãe, vou já, e veio e lá fomos as duas buscar bananas, e mais comida e mais a medicação".

Não foi fácil: o minimercado delas estava cheio, o outro onde nunca iam ainda pior, safaram dois cachos num bazar chinês, "que se calhar por ser chinês não tinha ninguém". Agora, "tenho bananas até sexta, já as contei". E ela cala-se e depois diz: "Olhe, faço anos sexta que vem, é dia 27, faço 82...". E pára outra vez: "Eu sei, vou passar os anos sozinha, não faz mal".

Fernanda, que não vê a filha desde quarta, "mas ela liga todos os dias", nem o neto nem o bisneto há 15 dias, é dos quase 50 mil portugueses com mais de 65 anos que vivem sozinhos num país de dois milhões de idosos (21% da população) e dos mais envelhecidos da Europa, só superado pela Itália e Alemanha.

Debaixo de recessão emocional

Com Portugal em estado de emergência e a população de 10,2 milhões ordenada à quarentena em casa, quem já vivia isolado vai extremar-se na solidão. "É com eles, os idosos, que temos que ter cuidado", alerta Renata Benavente, da direção da Ordem dos Psicólogos, "porque vão aumentar, a médio e longo prazo, o stress, as depressões, as psicoses, toda esta inquietação vai-nos marcar".

A psicóloga entende que o isolamento pode afetar a saúde física e agravar perturbações mentais, como disse ao "The Guardian" Holt Lundstad, neurocientista da Universidade de Brigham Young, EUA: "Temos provas de que o isolamento está ligado a funções cardiovasculares como pressão arterial, frequência cardíaca, hormonas do stress circulante, e que isso eleva o risco de morte prematura".

É por isso, diz Renata Benavente, que "é agora tão importante aumentar a comunicação com os idosos, já que não devemos, por eles, estar fisicamente com eles pois podemos transmitir-lhes um vírus que não sabemos se temos. Mandar mensagens, ou telefonar, que é melhor, fazer uma videochamada, que é melhor ainda porque eles podem-nos ver, é fundamental diminuir o isolamento com tecnologia virtual". A psicóloga vinca a "necessidade de transmitirmos informação boa, verdadeira, de relativizarmos o que é menos bom, de darmos esperança. E dizermos sempre que isto é temporário, que vai passar", contribuindo para travar uma certa "recessão emocional" que já se sente e mais se há de sentir.

Eulália Gonçalves, 82 anos, de Sanfins, Paços de Ferreira, já almoçou, "uma batatinha, um peixinho cozido", já lavou a louça, "é boa de lavar, sou só eu", e continua na cozinha, sentada à salamandra, toda soalheira. "Sabe-me bem, faz companhia, o lume, é, gosto muito, é a minha companhia, mais do que a TV, a TV agora só dá a desgraça e o corona, ai coitadinhos dos italianos, estão tantos a morrer...".

A última vez que saiu de casa foi quase há 15 dias, na última missa da igreja de Sanfins. "Agora já fechou. Sinto muito a falta, sabe?, eu fazia leituras, catequese, cantava no coro, agora não. A igreja nunca tinha fechado, é triste, não é?", diz Eulália que há anos curou uma depressão e aprendeu a dizer Xanax.

"Muito mexida", entretém-se "com as coisinhas da casa, o crochê, bainhas abertas e paninhos assim". Teve sete irmãos, "três morreram novos", não tem filhos e nunca casou, "não havia forma para o meu pé, foi assim, que se vai fazer?". Já se habituou à reclusão, Eulália, "é um bocadinho triste, mas tem que ser, não é? Agora não há beijos nem abraços, ninguém pode tocar em ninguém". Agora não sai de casa, já pede as compras ao telefone, que lhe deixam ficar depois à porta, no quintal. Agora a medicação "é uma sobrinha que cá vem, ela já nem entra, tem medo por mim. Mas falo muito ao telefone, olhe, nunca falei tanto ao aparelho como agora", diz Eulália. Agora ela lê mais, "livros espirituais e de Deus, dá-me consolo, leio na cama, vou para a cama quando o sol vai a baixar". Ela folheia, pára em S. Paulo: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé". E: "Isto há de passar. Vai passar, não vai?".

Vírus ataca os mais velhos

Um estudo do Centro Chinês de Controlo e Prevenção de Doenças demonstrou que o coronavírus, que provoca a doença respiratória Covid-19, afeta mais seriamente idosos com problemas de saúde preexistentes. Isto é, as probabilidades de se morrer deste vírus sobem com a idade, e a fatalidade é maior acima dos 60 anos. Nas vítimas do país asiático onde deflagrou o vírus, prevaleciam condições de saúde precárias: doenças respiratórias, hipertensão, problemas cardiovasculares, diabetes. São as mesmas patologias mais comuns entre os mortos italianos, que com 4032 mortes (média de idade: 81 anos), já passaram os chineses (3255).

Ai Jesus, podia vir calor

"Estou aqui a ver as tragédias na televisão", diz Odete Sousa, 92 anos, de Monserrate, Viana, terra de emigrantes que demoram a voltar, a freguesia em desolação. "Fico assim assustada. E triste. Nunca vimos nada assim, é tão terrível".

Mãe solteira, com um filho que morreu aos 56 anos, Odete tem dois netos e duas noras, mas eles estão emigrados e agora não vê ninguém. "Estou sozinha. Já estava habituada, tenho as minhas coisas, trato da casa, entretenho-me assim". Vai lá uma sobrinha todos os dias, com as compras e os remédios. "É muito irrequieta, entra-me em casa, ela não tem medo, diz que vamos ganhar a guerra. Mas não me toca, fugimos uma da outra, nem tocar nem respirar perto, é o que dizem na televisão, não é?".

Hipertensa, com arritmias no âmago, Odete caiu três vezes nos últimos três anos. "Parti um pulso, depois outro, depois a boca, foi na varanda, tropecei, bati no ferro, fiquei sem dentes. Mas já tenho uns novos, é". Depois Odete pede calor: "Parece que o vírus, o corona, não gosta do calor, não é? Ai Jesus, quem dera que viesse já muito calor". E depois Odete diz aquela frase terrível que os idosos andam todos agora a dizer: "Eu já estou velha, já não faço falta, tenho muito medo é pelos outros, pelos meus".

Manuel, 84 anos, apoia o tio de 96

Há uma coragem indómita neles todos, uma audácia que não é controlada, que só pode vir do coração. E a Manuel Matos, alentejano de Beringel, à beira de Beja, 84 anos, deviam pôr-lhe ao peito uma medalha de bravura: todos os dias às 9 horas, depois das sopas do pequeno-almoço, vai ver do seu tio que mora a uns quilómetros dali. "Ele tem 96 anos, é sozinho como eu, ele pediu-me, tomo conta dele há 10 anos, desde o cancro". Vai de carro, diz Manuel, "levo máscara e umas luvas dessas das bombas, levo-lhe comida, um bocadinho de companhia, o que ele precisar. Não tenho medo, tenho é que ter cuidado, estamos naquela idade sabe?, mas aqui em Beringel o vírus vai a zero, aqui estamos a ganhar".

Formado, trabalhado e apaixonado pela CUF do Barreiro, a fábrica onde cresceu, o clube que o arrebatou, Manuel, que fala pelos dois cotovelos como quem abraça, tem dois filhos e três netos. "Mas agora pararam de vir, vinham ao fim de semana e ficavam à vez, agora não, vem um e deixa-me a comida, depois outro, tem que ser, o restaurante daqui fechou, eu não sei cozinhar".

Viúvo desde que um derrame cerebral lhe desramou a mulher, "ela era poeta, tem um livro editado, "Horizonte Fechado", é tão bonito, dá-me muitas saudades dela, nem o posso ler", Manuel entretém-se pela horta, pela casa nutrida de livros, dorme sestas, vê TV. Às 6 da tarde, rigorosamente, dá de comer a quatro gatos que não são seus. "É uma gatinha, é branquinha, abandonada, teve há dias três filhotes, agora se calhar são meus. E, olhe, tenho que ir", diz Manuel ao telefone, "tenho que ir, ouve-os?, são seis horas, os gatos querem comer e já estão a chamar por mim".